Cannes revelou o derradeiro filme de Heath Ledger

'The Imaginarium of Dr. Parnassus' foi o filme de Heath Ledger que o actor australiano já não concluiu. Apesar de tudo, Terry Gilliam conseguiu acabá-lo e a estreia mundial ocorreu em Cannes.

Com a sua cada vez mais importante secção de clássicos, dando a ver títulos de referência (ou quase esquecidos) em cópias impecavelmente restauradas, o Festival de Cannes cumpriu este ano, uma vez mais, uma exemplar promoção das memórias cinéfilas. De Michael Powell (Os Sapatos Vermelhos) a Jean-Luc Godard (Pedro o Louco), foram muitos os filmes que serviram para celebrar o valor fundamental da defesa do património. Aliás, a World Film Foundation, entidade que trabalha com arquivos fílmicos de todo o mundo, fez questão em manifestar o seu apoio, nomeadamente através da presença do seu presidente, Martin Scorsese. Com algum simbolismo, a secção Cannes Classics voltou a ocupar uma sala especial, criada em 2007, no ano da 60ª edição do certame, precisamente baptizada como Salle du Soixantième.

Bem diferente era a expectativa gerada pela estreia mundial, fora de competição, de The Imaginarium of Dr. Parnassus, de Terry Gilliam. Eram também memórias muito fortes que estavam em jogo. Suspenso há pouco mais de um ano, na sequência da morte do protagonista Heath Ledger, o filme parecia condenado a ficar pelo caminho, já que Ledger tinha rodado um número relativamente reduzido de cenas.

O certo é que Gilliam não desistiu, ele que é conhecido pela ambição das suas produções e pela tenacidade do seu carácter. Tendo em conta que o filme se centra na trupe do Dr. Parnassus (Christopher Plummer), que tem um espelho que dá entrada para um mundo alternativo, Gilliam imaginou uma solução engenhosa. Cada vez que a personagem de Ledger atravessa o espelho (e são três), transfigura-se numa personagem diferente. Na prática, vemo-lo "recriado" por Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell.

O estratagema não salva o filme de uma enorme irregularidade, quer em termos dramáticos, quer na definição das personagens, tanto mais que Gilliam se mostra pouco disciplinado na gestão dos riquíssimos recursos técnicos que tem à sua disposição. Seja como for, a sua simples existência faz com que se encerre, assim, a história cinematográfica de Heath Ledger, ele que foi uma das figuras mais em destaque no ano cinematográfico de 2008, pelo seu Joker em O Cavaleiro das Trevas.

Terry Gilliam permanece um criador obstinado e, em Cannes, fez questão em referir que não vai desistir do seu mais famoso projecto "falhado": uma pessoalíssima versão de Dom Quixote. Já o tentou há alguns anos, mas uma série de problemas climatéricos, de produção e até de saúde do protagonista (Jean Rochefort) impediram que se concretizasse (essa odisseia mais ou menos rocambolesca está registada num documentário de 2002: Lost in La Mancha). Agora, Gilliam já prepara The Man Who Killed Dom Quixote que veremos, em princípio, em 2011. Talvez em Cannes.

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