Cinema americano para além dos grandes estúdios

Os novos filmes de Jim Jarmusch e Jeff Daniels dão-nos a conhecer o estado da produção independente americana de cinema

O cinema americano continua a ser feito de muitos e sedutores contrastes. Depois da descoberta de The BFG, produção dos estúdios Disney assinada por Steven Spielberg (estreia a 7 de julho, com o título O Amigo Gigante), a competição de Cannes deu a ver os títulos mais recentes de dois cineastas mais ou menos ligados à zona dos independentes: Jim Jarmusch e Jeff Nichols.

O caso de Nichols é o mais desconcertante, quanto mais não seja porque o associamos a obras de risco, como são os seus dois primeiros filmes, Histórias de Caçadeiras (2007) e Procurem Abrigo (2011). Agora, ele faz Loving, evocando um caso emblemático na história judicial e política dos EUA, centrado na odisseia de um homem branco e uma mulher negra, em 1958: depois de casados em Washington, são proibidos de viver juntos no estado da Virgínia - a sua batalha até ao Supremo Tribunal ficou como um episódio decisivo na luta pela igualdade de direitos. Estranhamente, Nichols faz um filme "demonstrativo", próximo dos clichés dos mais académicos telefilmes, sobrepondo a mensagem "simbólica" à vida das próprias personagens.

Bem diferente é a atitude de Jarmusch que, por princípio, se interessa pelas personagens mais bizarras e inclassificáveis. O seu Paterson observa um condutor de autocarros, interpretado por Adam Driver (Kylo Ren em Star Wars). Entre as suas particularidades, inclui-se a escrita diária de poemas, num caderno que o acompanha para todo o lado (e que terá uma função vital no desenlace do filme), além da ironia do nome: chama-se Paterson e vive na cidade de... Paterson.

Os fãs de Jarmusch não deixarão de reconhecer as marcas de um realismo irónico (ou poético) que o leva a representar a banalidade do quotidiano como uma interminável coleção de acontecimentos microscópicos que envolvem a promessa de alguma transcendência ou, pelo menos, de uma dimensão alternativa em que se discutem, pacientemente, os sentidos da existência humana. Paterson faz lembrar, assim, esse romantismo paradoxal que encontramos em O Comboio Mistério (1989) ou Noite na Terra (1991). Isto sem esquecer que a direção de fotografia é assinada pelo veterano Frederick Elmes, o mesmo de Veludo Azul (1986), de David Lynch.

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