Cem anos de 'Intolerância', o cinema no berço da história

A 5 de setembro de 1916, estreava-se Intolerance, o filme de David W. Griffith que revolucionou a forma de se contar histórias

"O que fará se Intolerância fracassar?" "Dirigir-me-ei para a costa de Jersey e procurarei um desses tubarões comedores de homens." A pergunta é de Henry Stephen Gordon, para a revista Photoplay, e a resposta, oferecida com um sorriso malicioso, é, claro, de David W. Griffith (1875-1948). Na entrevista disse mesmo que depois deste não faria mais filmes e que tencionava regressar ao teatro (antes de se dedicar ao cinema, tinha sido dramaturgo e ator).

Recordemos, até para perceber com clareza o tom das palavras, que por essa altura Griffith ainda vivia o rescaldo do estrondoso sucesso de O Nascimento de Uma Nação (1915), de alguma maneira manchado pela polémica em torno das suas alusões racistas (indícios que se reforçavam pelas origens sulistas do realizador), e Intolerância eclodia assim na medida de uma resposta à nuvem cinzenta que se abatera sobre esse primeiro acontecimento cinematográfico.

Escusado será dizer que o anúncio da desistência deste homem autodidata não se expressou na realidade dos factos, tendo acrescentado à sua filmografia - então já com mais de 480 títulos, quase todos dos estúdios Biograph - cerca de uma vintena de longas-metragens. Entre elas, esse magnífico objeto que é O Lírio Quebrado (1919), o ponto mais alto das colaborações com a atriz Lillian Gish (1893-1993).

Estreado há exatamente um século, no seu escrupuloso título original Intolerance: Love"s Struggle throughout the Ages, este revolucionário momento da história do cinema americano, e do cinema mundial, ditaria as bases de uma inovadora estrutura, em que a montagem do espaço e do tempo desafiava, de forma categórica, as linguagens narrativas até aí conhecidas. A saber, Griffith intercalava aqui quatro segmentos de épocas distintas - usando o leitmotiv visual de uma mulher, que será a "Mãe Eterna" (Lillian Gish), a vigiar um berço - para destas histórias realçar os efeitos perniciosos da intolerância e do ódio ao longo dos tempos. Percebe-se, desde logo, o intuito moralizante, mas são os segredos formais, essa maneira de contar, que se constituíram a genuína invenção.

Como o próprio dizia, tratava-se de um "drama de comparações", e nele juntou a conquista da Babilónia pelos Persas (século VI a.C.), a vida e Paixão de Cristo, o massacre dos huguenotes na noite de São Bartolomeu (Paris, 1572), e uma tragédia doméstica ambientada na época contemporânea ao filme, que apresenta, de resto, traços da observação social presente em toda a sua obra.

Griffith descobriria no cinema o autêntico desígnio de uma universidade para as massas, fazendo--lhes chegar, através do entretenimento, as verdades históricas que de outro modo lhes estavam interditas. Não será errado partir do princípio de que foi sobretudo isso que funcionou em O Nascimento de Uma Nação, um filme determinado a transgredir os padrões do mercado, com as suas três horas de duração, e a desviar o conceito de "cinema de atrações" (termo de Serguei Eisenstein), para instalar um esmerado programa narrativo, de inaudita gramática visual. Nos mesmos propósitos, previa-se o êxito de Intolerância, que somava às três horas mais 30 minutos de película (tendo várias cópias levado sucessivos cortes...).

Mas a realidade, essa sim foi intolerante. O filme revelou-se um enorme falhanço comercial, e tal desventura simbolizou uma irreversível machadada na fortuna pessoal do realizador, que financiou praticamente os dois milhões e meio de dólares a que ascendeu a produção... Em 1919, como quem procura relíquias nos escombros de uma catedral, ainda converteu duas das histórias, que naturalmente tinham potencial dramático isolado, em obras individuais - The Fall of Babylon e The Mother and the Law -, mas nunca mais se repetiu um grande triunfo.

O impulso lucrativo do anterior O Nascimento de Uma Nação traduzira-se, sem dúvida, nesse otimismo que acabou por fazer de Intolerância a criação robusta que é - não apenas no que respeita à arquitetura narrativa, mas na dimensão física dos cenários, com a abundância de figurantes, e até ao nível do guarda-roupa. O episódio da queda da Babilónia será o melhor exemplo de tal gigantismo da produção, precisamente com cenários que cresciam em largura e altura, consoante a pergunta de Griffith ao responsável pelas construções, Huck Wortman: "Podemos acrescentar uma ala aqui ou aumentar a altura ali?" É o relato que nos faz o diretor de fotografia, Billy Bitzer, nas suas memórias dessa rodagem, sob a liderança do mestre visionário, onde se contavam entre os assistentes de realização o igualmente futuro mestre Erich von Stroheim, Victor Fleming e Tod Browning.

A justiça feita a Intolerância, na sequência de diversas reflexões e estudos por parte dos teóricos e historiadores do cinema, ao longo dos anos, reuniu consensos no mais fundamental dos aspetos: David Wark Griffith criou os códigos narrativos e visuais que estão na origem da expressão cinematográfica dominante. Na hierarquização de planos, surgiam close-ups na qualidade de intensos territórios de dramaturgia, trazendo aos nossos dias a memória de Lillian Gish, ou de outra atriz, Mae Marsh, pela marca indelével dos seus rostos talhados na composição fechada e muda. Foi mesmo Gish quem afirmou: "Para nós, Mr. Griffith era a indústria cinematográfica em si. Foi na sua cabeça que ela nasceu." E ninguém o diria melhor.

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