Carlos do Carmo: "Estou em obras desde fevereiro do ano passado"

O fadista Carlos do Carmo apresenta-se esta noite em concerto com a Orquestra Gulbenkian e tendo como convidado o músico brasileiro Ivan Lins.

Assim que recebeu o convite para fazer um concerto com a Orquestra Gulbenkian, Carlos Carmo pensou logo que tinha que convidar o seu "querido" Ivan Lins. "Temos uma amizade de quatro décadas. Ele tem uma coisa que eu aprecio, além do caráter, é que é antivedeta. Eu não tenho pachorra para vedetismos." O fadista de 76 anos e o músico brasileiro de 71 vão estar esta noite no Anfiteatro ao Ar Livre da fundação num concerto único, integrado na programação do Jardim de Verão.

Conheceram-se nos anos quentes, quando Carlos do Carmo fazia concertos um pouco por todo mundo a celebrar o 25 de abril. "No Brasil, a ditadura estava bem presente e aqueles concertos, no Rio de Janeiro ou em São Pulo, eram um momento excecional para os grandes artistas, que ali podiam cheirar a liberdade." Ivan Lins já conhecia a música de Carlos do Carmo, tinha-o visto no programa de Flávio Cavalcanti e tinha ficado fã. "Quando nos conhecemos houve logo uma relação", lembra Carlos do Carmo.

"O Ivan começou a vir a Portugal e é completamente apaixonado pelo país. Fomos ganhando uma grande cumplicidade." Uma noite, no final de um desses concertos, Ivan sentou-se ao piano e começou a tocar: "Você gosta disso?" "Isso parece-me um fado", respondeu o português. "É uma tentativa", riu-se o brasileiro. Esse foi o primeiro de muitos "fados brasileiros" que Ivan Lins fez e Carlos do Carmo gravou e chama-se Olhos Negros.

De volta à Gulbenkian

Quinta-feira. Um calor abrasador em Lisboa. Perto das 15:00, Carlos do Carmo desce lentamente as escadas da sala de ensaios da Orquestra Gulbenkian. Os músicos já estão todos sentados. O fadista dá um abraço a Carlos Manuel Proença e outro a José Manuel Neto, viola e guitarra e, mais do que isso, companheiros de longa data.

Tinha acabado de conhecer o maestro Rui Pinheiro uns minutos antes. "Estivemos a ensaiar hoje de manhã e parece-me estar tudo ok", disse-lhe o maestro. Este será o primeiro ensaio do fadista com a orquestra mas não há qualquer nervosismo. Carlos do Carmo está habituado a tocar com outras orquestras e confia nos arranjos "belíssimos"de Bernardo Sassetti. Só falta Ivan Lins, que só vai ensaiar na sexta-feira.

Faz-se silêncio. Carlos do Carmo dirige-se aos músico: "Eu cantei aqui em 1985, no Acarte, foi a dra. Madalena, que era uma grande fã, que me convidou. E foi a primeira vez que se cantou o fado na Gulbenkian. Cantei com a minha colega e uma grande senhora, Teresa Silva Carvalho, e foi um concerto muito bonito. E agora volto com grande alegria." Bebe água. Os músicos estão em posição. Risto Niemin, diretor do Serviço de Música da fundação, senta-se ao fundo da sala para assistir a uma parte do ensaio. O maestro levanta os braços. Ouvem-se os primeiros acordes de Duas Lágrimas de Orvalho.

O "descanso do guerreiro"

Este concerto é especial ainda por mais um motivo: Carlos do Carmo tem andado longe dos palcos. "Estou em obras desde fevereiro do ano passado", diz, com o bom humor que o caracteriza. A saúde pregou-lhe algumas rasteiras. "Estive fora de jogo." Neste período, a família procurou manter as doenças como "uma coisa discreta". "E se estou a contar isto agora, com boa onda, é porque acho fantástico ter sobrevivido. Não me estou a lamentar." Agora, o médico só lhe dá autorização para fazer um concerto por mês, prescrição que ele pretende cumprir à risca. "Tenho aproveitado para desfrutar da família. Quando tinha saúde cheguei a fazer cem concertos num ano, em cantos opostos do mundo. Se não fosse a minha querida Maria Judite [a mulher] a educar os filhos nem sei como teria conseguido. Agora é um bocado esse resgate. Se ainda for a tempo."

Aproveita também para fazer outras coisas. "Nem sonha para o que eu sou solicitado. O telefone de minha casa não para. Convidam-me para conferencias, para ir as escolas, e encanta-me isso." Neste "descanso do guerreiro", conta com a ajuda do filho, Becas, que trata de todos os assuntos relacionados com a sua carreira. "Neste momento faço uma coisa que nunca fiz na vida: só canto. Não quero saber de nada, ele trata de tudo."

Fisicamente, o fadista está abatido. Mas quando canta Por morrer uma andorinha ou Gaivota está tudo lá. Os músicos da orquestra aplaudem entre cada canção. Hão de gritar uns bravos depois de Canoas do Tejo. Alguns hão de pedir para tirar uma fotografia com o fadista. "Tenho o privilégio de cantar estas palavras de grandes poetas. São palavras simples, não são rebuscadas, mas vão diretas ao coração. E é bom ver daqui que vocês também as sentem", diz-lhes depois de Cacilheiro, com letra de Ary dos Santos. "Isto não é nada muito complexo, isto é só fado."

Carlos do Carmo com Ivan Lins e a Orquestra Gulbenkian
Anfiteatro ao Ar Livre, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Hoje, 21.30
Bilhetes: 20 euros

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