Canções para uma festa: três países, três mulheres

Conhecemos Gisela João, mas talvez nem tanto Mariela Condo, do Equador, ou Yomira John, do Panamá. As três vozes femininas inauguram hoje a programação da Capital Ibero-Americana da Cultura num concerto que é uma viagem

"És a fadista?" pergunta a cantora panamenha Yomira John. Pergunta-o num espanhol que qualquer português perceberia. É alta, negra, com o cabelo platinado, e logo a seguir aparece a correr o seu filho de nove anos, cujo rosto espelha os indígenas kuna do Panamá. Dissemos que não. Gisela João ainda não chegara ao Teatro São Luiz, em Lisboa, mas o retrato do concerto de hoje e amanhã quase estava feito no mosaico que ali logo se formou. Depois apareceria Mariela Condo, música do Equador, para o completar. As três cantoras estarão hoje e amanhã em palco às 21.00 para cantar Canções para uma festa e assim inaugurar o programa da Capital Ibero-Americana de Cultura, que neste ano trará cerca de 150 eventos a Lisboa, de concertos a exposições ou colóquios.

Não se conheciam. Mariela confidencia que vai ouvir a música de Yomira. Mas já descobriram pelo menos uma em comum: Duerme Negrito, que integra o álbum de Mariela Pinceladas. É uma canção de embalar tradicional da América Latina que já foi interpretada por Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, ou Víctor Jara. "Está na memória coletiva", diz Yomira John.

A certa altura, é como assistir a um jogo de pingue-pongue. Yomira sugere que talvez tivessem em comum "alguns boleros, alguns pasillos". Depois fala de Julio Jaramillo, o grande cantor equatoriano. "Ele cantava um tema que a minha mãe adorava [e começa a cantar de mansinho]: La noche que te fuiste, creí que moriría creí que no podría vivir sin tu querer." Chama-se Dos Años. "No Panamá ouve-se muito esta música no dia da mãe." Mariela começa depois a cantar outra de que gosta muito: Romance de mi destino.

"Uma relação ancestral"

Os dois concertos abrirão com Gisela João, a anfitriã que, depois de Mariela e Yomira, deverá fechar a noite cantando La Llorona, de Chavela Vargas, canção que gravou no seu último álbum, Nua. É Aida Tavares, diretora artística do São Luiz, quem o adianta. Foi dela e do programador António Pinto Ribeiro a ideia de juntar as três em palco. "O espírito da própria capital [Ibero-americana de Cultura] é um bocadinho esse conceito que escolhi para o São Luiz: mostrar coisas que as pessoas habitualmente não veem", explica. Escolheram então "três mulheres com cantos muito diferentes que tivessem alguma relação. No caso da Mariela e da Gisela são da mesma geração, depois procurámos uma outra mulher de outra geração". Yomira: que este ano fará 50 anos.

Como afinidades aponta-lhes "a forma como dizem as palavras" ao cantar, a "forte componente poética", e "a relação ancestral" com a música que cantam.

Mariela Condo nasceu na comunidade indígena de Cacha, em Chimborazo, centro do Equador. "Na minha comunidade, que vive nas montanhas, a maioria das pessoas dedica-se à agricultura, à semeadura, à colheita. A música é um elemento que acompanha o trabalho, a quotidianidade, sobretudo o canto, que é um elemento muito de todos os dias, e uma maneira de acompanhar o avançar do dia. Quem não está a cantar, está a assobiar, as crianças também. Isto é algo que talvez se esqueça na cidade. Nós, quando temos um momento muito tranquilo, íntimo, pomo-nos a trautear, é o mais natural, o mais normal", explica. Viveu naquela comunidade até aos seis anos, quando foi para a capital, Quito, estudar.

Yomira John nasceu na cidade do Panamá e começou por cantar no coro da sua paróquia. "Os coros das nossas igrejas são muito simples, não é como um coro gospel, não é Whitney Houston, não. São umas cançõezinhas, com a guitarra. Mas também era um escape para sair de casa. Era muito importante que pudesse pôr os pés fora de casa, porque a minha mãe não me deixava ir a lado nenhum", conta numa gargalhada. Mas o grande impacto da música na sua vida viria aos 13 anos, quando conhece um coro gregoriano chamado Musica Viva. "É ali que entendo melhor o que são as tradições, o canto folclórico, gregoriano, renascentista, então entrei para o conservatório para estudar música."

Depois há África, e para perceber isso nem seria preciso olhar para ela, bastaria ouvir a sua música (experimente-se Mama Congo, que gravou em Ida y Vuelta ). Além das raízes africanas, que remontam à influência do império Mandinga (atualmente o Mali e a Guiné) também há nela a cultura kuna: "São os indígenas do meu país, como o meu filho." E mostra uma pequena flauta kuna em madeira. "No Panamá temos sete etnias, além dos negros, dos brancos, e dos crioulos. A minha música é a mestiçagem de tudo isso."

Mariela conta que levará para o palco do São Luiz uma canção em quíchua, um dos idiomas indígenas do Equador - "Temos 25". Chama-se Kikilla, que quer dizer "dorme", e que ela herdou dos avós. "As canções que canto não são de um só lugar, são canções que fui encontrando, ou que me foram encontrando a mim", diz a cantora e compositora equatoriana. Yomira retomaria mais adiante essa ideia para contar que, na sua família, "a música sempre foi muito forte, os ritmos, o canto, a poesia..." Fala de Fernando Pessoa, que só conheceu em adulta e de quem diz que espera vir a aproximar-se ainda mais depois desta visita a Portugal.

Ir onde as mães e as avós não foram

Perguntamos-lhes se são as primeiras nas suas famílias a seguir uma carreira musical. "A minha mãe também cantava em jovem, mas depois apaixonou-se por outras coisas" afirma Mariela. "A minha avó também cantou muito, deixou todos apaixonados e rendidos à sua voz no campo. A minha mãe também cantou com muita paixão, mas depois deixou, por razões da época: não era bem visto que as mulheres que vinham do campo cantassem na cidade. Uma negrita muy linda... Prestava-se a coisas más, havia muito preconceito." Com ela, que cresceu na capital do Panamá, e noutros tempos, já não foi assim.

"Comove-me chegar ao palco com tudo o que aprendi, dedicando canções à minha avó, pegando em situações do seu quotidiano e passá-las para a vida que conheço na cidade..." Yomira John criou uma fundação, que tem o seu nome, para ajudar as raparigas e mostrar-lhes que "também podem ser compositoras, para que possam expressar-se, para que elas tenham outra forma de olhar para si próprias. Todas querem ser Shakira... A mim também me faltaram recursos para escrever mais..."

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