Burmester e a Casa da Música, de filho pródigo a 'habitué'

Há três anos, o pianista portuense atuava pela primeira vez na Casa da Música (CdM), casa à qual esteve ligado desde a primeira hora, num evento que teria "honras" de edição discográfica (pela própria CdM). De ausência mais "ruidosa" a presença finalmente regular, Burmester fecha esta tarde o Ciclo de Piano 2016 com um recital dedicado a Beethoven, Bach e Liszt

A 8 de dezembro de 2013, Pedro Burmester terminava o exílio "performativo" voluntário que declarara à sua cidade natal, motivado pela sua discordância de fundo em relação à política cultural da gestão autárquica de Rui Rio. Era, então, a primeira vez que Pedro atuava na Sala Suggia da Casa da Música e o evento teve compreensível ressonância mediática, ou não fosse Pedro um "filho dileto" entre os artistas nados e criados na cidade nortenha.

Aluno mais brilhante da grande pianista e pedagoga Helena Sá e Costa (1913-2006), Pedro Burmester desenvolveu uma ativa carreira até que os projetos Porto-2001 e Casa da Música surgiram no horizonte. Seria consultor artístico da novel instituição cultural, demitindo-se, polemicamente, em março de 2004. Começou aí a "travessia do deserto" terminada só em dezembro de 2013. O pianista recorda ainda vividamente o dia e a ocasião: "São memórias de algo muito intenso. Desde logo por uma razão extra-musical: o afastamento em que estivera, que fez com que nesse dia sentisse muito vivamente a comunhão, carinho e solidariedade do público". Um frisson muito forte no ar, mas, não obstante, diz, "consegui controlar esse lado mais emotivo e concentrar-me no que é realmente essencial - a música".

Mas a data ficar-lhe-ia gravada por uma razão ainda mais "extra"-musical: "A minha casa foi assaltada nesse dia. Quando regressei, à noite, encontrei tudo virado de cima abaixo! Os ladrões devem ter pensado que era a ocasião perfeita..."

Há três anos, Pedro Burmester interpretou assim a 'Bênção de Deus na Solidão', de Liszt:

Em relação ao recital de há três anos, dois compositores mantêm-se: Bach e Liszt; outro surge agora: Beethoven, compositor cujos cinco concertos para piano Pedro interpretou ao longo do Ano Alemanha da CdM, em 2015: "Beethoven é um "cavalo de batalha" do repertório e as suas sonatas são, na minha opinião, obras que precisam de maturidade para serem exequíveis e apreensíveis na sua plenitude, já que nelas o conteúdo musical, objetivo e o conteúdo subjetivo estão fundidos de uma forma incrível".

Mais assim, ainda, na Sonata, op. 109, uma das últimas do compositor: "essa e as suas "irmãs" [ a op. 110 e a op. 111, que Burmester, informa-nos, nunca interpretou em público] são obras que reinventam e redefinem formalmente o género da sonata. No caso da op. 109, é uma obra que prima pela concisão. Tudo ali é extraordinariamente conciso e concentrado e até consigo entrever, naquelas páginas, o que o Schönberg fará nas suas peças para piano, uns 80 anos depois!"

Uma entrevisão, quiçá, fruto da tal maturidade, pois, afirma, "lembro-me que toquei esta Sonata há uns 25 anos, em Matosinhos, num ciclo integral das sonatas de Beethoven promovido pelo Dr. Manuel Dias da Fonseca [histórico vereador da Cultura da câmara de Matosinhos, falecido no ano passado, aos 91 anos] e recordo o desconforto que senti então com ela, pois toquei sem saber o que devia de facto fazer, não fui ao âmago da obra".

De resto, Beethoven tem uma dimensão à parte para Pedro, que ele reforça assim: "Veja, em 2013, nas negociações da coligação [CDU/ CSU+SPD] que governa a Alemanha, um dos pontos do acordo escrito estabelecido entre os partidos refere expressamente a preparação das comemorações dos 250 anos do nascimento de Beethoven, em 2020, como um desígnio nacional alemão. Isto é, Beethoven é tão importante que até entra ainda hoje em acordos políticos!", sintetiza.

Já Bach recorda-lhe a mestra: "É uma herança que conservo de Helena Sá e Costa: reconhecer nele uma dimensão cósmica, uma personalidade de alguma forma extraterrestre. É em todo o caso a minha Bíblia, e as seis Partitas [vai tocar a n.º 2, que nunca tocou em público] são para mim, junto com o Cravo Bem Temperado, as mais extraordinárias obras dele para tecla."

Ao contrário de há três anos, quando tocou em extra uma peça de Luís Pipa que trata em jeito de blues o hino nacional, desta feita Pedro não tem "na manga" nenhum extra inesperado: "agora tenho três "extras" preparados: um relaciona-se com a op. 109, outro com Bach e o último é uma peça de Liszt que se move no universo da ópera".

A solo (ou) com Laginha
O programa desta tarde estreou-o Pedro ontem, em Viana do Castelo. Amanhã, leva-o por sua vez a Trás-os-Montes (Teatro de Vila Real, às 21.30) e, já no Novo Ano, a 10 de janeiro, trá-lo à Lisboa, ao Grande Auditório da Fundação Gulbenkian. Depois disso, 2017 contém "em possibilidade, uma digressão à América do Sul com o Mário Laginha, que é atualmente o músico com quem mais toco - fizemos uns 12 ou 13 concertos este ano. Nesses concertos, toco sempre algumas peças a solo. E aliás vamos desbravar repertório novo no próximo ano".

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