Bruce Springsteen, o operário que já veio de mangas arregaçadas

Foram duas horas e 40 minutos - quase sem pausas. E em que The River quase ficou de fora. Mas a festa fez-se na mesma em Lisboa.

Sem tempo a perder, de camisa de manga curta, preta e justa, Bruce Springsteen entrou em palco, pegou na guitarra, despachou um "olá Lisboa, olá Portugal", e atacou os primeiros acordes da (quase) inevitável Badlands. Era o início de um concerto de duas horas e 40 minutos - quase sem pausas.

O Boss apresentou-se esta quinta-feira à noite no parque da Bela Vista, em Lisboa, para a primeira da edição deste ano do Rock in Rio, como o operário que canta o sonho americano que passa ao lado de trabalhadores e que recupera Because the Night, também de Patti Smith, para cantar aos amores. E eles também ali estavam no palco, a sua E Street Band de sempre, os amigos Steven van Zant, Maz Weinberg, Roy Bittan, Nils Lofgren, Garry Tallent, Soozie Tyrell e Jake Clemons - ou Clarence Clemons e Danny Federeci, membros da banda entretanto mortos, que surgiriam mais tarde em Tenth Avenue Freeze-Out, na única projeção de imagens que rompeu com os jogos simples de luz e a transmissão em direto do concerto no palco.

Bruce Springsteen faz destes temas uma festa. Sem baixar o ritmo, mesmo que o quinto tema, Darkness on the Edge of Town, seja uma quase balada (e a primeira floresta de lanternas de telemóveis façam as vezes dos isqueiros), Springsteen é o operário que coloca tudo na ordem - e em movimento: os braços no ar, as palmas, o passeio pelo corredor entre o público, a voz cantada ao ouvido de quem ali está junto ao palco, um "obrigado" que repete sem grande esforço, a groupie que sobe ao palco para um pezinho de dança em Dancing in the dark.

Ao operário pede-se um trabalho de rituais, para mexer numa maquinaria oleada, afinada, quase não abrindo portas a surpresas. Mas para esta noite ainda fria de Lisboa Bruce Springsteen guardou várias: cinco estreias no alinhamento desta The River Tour - Darkness on the Edge of Town, Downbound Train, I'm on Fire, Johnny 99 e Spirit in the Night. Mas os 27 temas (longe dos 36 tocados em Barcelona) deixaram de fora Purple Rain, que Springsteen vinha cantando desde a morte de Prince, e quase esqueceram o álbum que é celebrado pela digressão, nos 35 anos da sua edição.

Se nos EUA, a obra era ouvida na íntegra e na estreia europeia, no último sábado, em Barcelona (onde esteve o DN) The River ainda foi a espinha dorsal do concerto, esta quinta à noite em Lisboa ouviram-se apenas três canções do álbum - tantas como de Born to Run e Darkness on the Edge of Town, que cronologicamente antecipam The River. Foi a Born in the USA que The Boss foi buscar a maior parte das canções (nove) que levaram a festa ao parque da Bela Vista.

E a festa fez-se. Apesar da hora e do frio, uma massa humana a cantar os hinos, a acompanhar uma sequência desopilante de Born in the USA, Born to Run, Glory Days e Dancing in the Dark, mas também já quase ao cair do pano Twist and Shout, a segunda versão da noite, em que assomaram uns acordes de La Bamba. Às 2.26 da manhã, Bruce Springsteen regressa ao palco para "one more for Lisbon". This Hard Land é a canção que se ouve na voz, na guitarra e na harmónica. Cinco minutos depois estava fechada a noite. Como começou: a cantar os deserdados de uma América tantas vezes próxima do nosso imaginário. Talvez por isso, havia um cartaz que se exibia ali próximo do palco: "Fuck Trump".

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