Botticelli ao espelho no vestido de Lady Gaga ou numa Vénus asiática

Nunca o pintor renascentista foi mostrado assim no Reino Unido. São 500 anos: do século XV a David LaChapelle

O Nascimento de Vénus (1484-1486) é, ao mesmo tempo, a grande obra ausente e a grande obra presente na exposição Botticelli Reimagined. O Victoria & Albert Museum, em Londres, povoou a sua galeria de exposições com obras do mestre florentino Sandro Botticelli (1445-1510) e de artistas que, até aos dias de hoje, o imaginaram e de novo o recriaram. E a sua Vénus, que devido à fragilidade da pintura não pode sair da galeria Uffizi, em Florença, é a obra mais citada nos 500 anos que esta mostra atravessa.

500 anos em que das pinceladas com que o renascentista Botticelli um dia fez nascer Vénus, vemo-la depois feita padrão num vestido da Dolce & Gabbana - coleção primavera e verão de 1993. O mesmo que Lady Gaga usou na promoção do seu álbum Artpop (2013). E vemos a Vénus tornada asiática pelo artista chinês Yin Xin, que já fez com mulheres das obras de Da Vinci ou Vermeer o que fez em Vénus, a partir de Botticelli (2008).

Esta é a maior exposição que o Reino Unido já dedicou ao pintor renascentista e que conta com 50 obras suas. Nela há ainda Uma Thurman a sair de uma concha no filme The Adventures of Baron Munchhausen (1988), de Terry Gilliam - como acontece na icónica figura de Botticelli -; e há uma Vénus que assenta os pés numa consola de jogos, rodeada de bombons Bacci, com um avião da Easyjet atrás e uma Hello Kitty à direita. É Tomoko Nagao, artista japonês, quem assina a obra.

Botticelli morreu há 500 anos e o incrível, nota o diretor do museu Victoria & Albert, Martin Roth, é que as imagens do pintor "representam o ideal contemporâneo de beleza". Com ou sem cinismo, com ou sem a violência de Cindy Sherman, que recria Botticelli, e com ou sem a plasticidade quase pornográfica do fotógrafo David La Chapelle em Renascimento de Vénus (2009). A exposição, diz ainda Roth, "considera o legado" do pintor e "mostra como e por que inundou a nossa memória visual coletiva".

Nos 500 anos que Botticelli Reimagined conta, contam-se também os 300 em que a sua obra foi praticamente esquecida. História que se recorda, por exemplo, na pintura Retrato de uma Senhora conhecida como Smeralda Bandinelli (1470-75), comprada pelo pré-rafaelita Dante Gabriel Rossetti.

A obra, que está na coleção do Victoria & Albert desde 1901, foi determinante para a redescoberta de Botticelli na era vitoriana e para o entusiasmo - quase fetichista - que os pintores pré-rafaelitas lhe dedicaram. Durante cerca de um século, desconfiou-se que os cabelos ruivos da suposta Smeralda Bandinelli fossem pintados por Rossetti, de cuja pintura este é um traço característico. Mas a autoria da obra de Botticelli acabou por ser confirmada ao fim desse tempo.

Além de O Nascimento de Vénus, A Primavera é outro quadro tão ausente (pelas mesmas razões), como presente na mostra através da tapeçaria de William Morris ou do homem de Magritte que leva A Primavera às costas.

Um Botticelli cristão

Ainda que seja bastante recordado pela imagética povoada por divindades pagãs como as suas Vénus ou Atena e o Centauro (1482) - na exposição -, Botticcelli também é o autor de Virgem e o Menino com Dois Anjos, presente nesta mostra que, antes de chegar a Londres, esteve no museu Gemäldegalerie, em Berlim. Foi convidado pelo Papa Sisto IV em 1481 para acrescentar as suas às pinturas da Capela Sistina, onde deixaria então cenas da Vida de Moisés e as Tentações de Cristo.

Conta Giorgio Vasari no livro A Vida dos Artistas (séc. XVI), que o pintor florentino a certa altura se terá tornado seguidor do sacerdote Girolamo Savonarola. Dominicano que, depois da queda dos Medici em 1494, e por um breve período de tempo, governou Florença. Será desse Botticelli religioso que conhecemos A Natividade Mística (1501), que mostra o nascimento de Jesus. Quadro com uma enigmática inscrição em grego onde Botticelli assume um pseudónimo e escreve: "Eu, Alessandro, pintei este quadro (...)".

Outra das citações de Botticelli, agora nas paredes do Victoria & Albert são as de Andy Warhol, com a sua Vénus em tons rosa. Ele que, um ano antes de morrer, pintou uma série de A Última Ceia, a partir de Leonardo Da Vinci.

De Botticelli, o rapaz que de tão irrequieto foi tirado da escola para as oficinas - começou por ser aprendiz de ourives e passou depois para o cuidado do pintor Fra Filippo Lippi -, sugere o mesmo Vasari que terá acabado a sua vida sozinho, angustiado e na miséria.

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