Bonga: o elixir da juventude e uma história entre cada música

Músico angolano, de 75 anos, foi este sábado o cabeça de cartaz do primeiro dia do EDP Rock Street do Rock in Rio.

"Eu cheguei cheio de raiva", foi logo avisando com humor Bonga, músico angolano, de 75 anos, que este sábado foi cabeça de cartaz do palco EDP Rock Street do Rock in Rio. Inteiramente dedicado a África.

Tocando dikanza, o reco-reco para portugueses e brasileiros, com orquestra e bailarinos a acompanhá-lo, Bonga mostrou porque é um nome maior da música africana de expressão lusófona.

Currumba, Galinha Kassafa, Olhos Molhados, Frutas da Vontade e Mariquinha foram alguns dos temas que cantou, enquanto o público dançava, sob o calor intenso que se fazia sentir no Parque da Bela Vista, cantava, aplaudia, gritava. E gritava um só nome: "Bonga! Bonga! Bonga!"

"Até agora o que gostei mais foi do Bonga, que é um músico com muita piada, ainda mexe com a idade que tem", diz ao DN Paulo Silva, empresário lisboeta de 57 anos, que veio este fim de semana com a filha de 12 ao Rock in Rio. Habituado a dançar música africana em festas, sobretudo kizomba e semba, também ali é ocasião para uma dança. "Acho boa ideia ter este palco dedicado à música africana. É pequeno. Devia ser talvez um pouco maior".

Efetivamente, Bonga conserva juventude no espírito, a sua alegria contagia o público. E entre cada música, tem uma história para contar, sempre com humor afiado, adaptado às realidades africanas. "Agora esses homens vão buscar as damas para dançar, de cara fechada, antigamente não era assim (e exemplifica). Depois agarram as damas pela cintura, é só tarraxo, mas depois a galinha só cacareja", brinca, enquanto a multidão se perde em risos.

Então não vê nada de positivo nesta moda da kizomba que agora existe em Portugal e na Europa? "A dança, os miúdos a dançar uns com os outros, é positivo. Mas se é moda só para uns ganharem dinheiro e depois desaparece não concordo", afirma ao DN, após o fim do concerto, mantendo sempre a boa disposição.

Quanto ao repertório do concerto escolheu as músicas mais importantes? "É complicado. Não posso ir pelos pedidos do público que assiste. Até porque tenho tempo limitado. Eu para escolher as mais conhecidas tinha que tocar aí sempre 60 músicas", explica, divertido, sublinhando que um palco só para África no Rock in Rio é algo positivo.

"Antes tarde do que nunca. Sermos convidados para este evento, estarmos presentes, é de saudar. Tenho muito orgulho em ter estado aqui, representando esta África imensa, com tudo o que isso acarreta de músicas, carreiras, vocês viram como esse povo reagiu. Uma África que não tem nada a ver com determinados dirigentes que só complicam", dispara, criticando os africanos que "são uns imitadores de Europa e América e uns endinheirados".

Bonga aproveita ainda para chamar a atenção para a crise migratória oriunda de África rumo à Europa. "Os dirigentes políticos do mundo deviam dar-se conta do ridículo que é, no século XXI, estarmos ainda a ter gente que prefere morrer afogada do que ficar nos seus países de origem. Mas eles também não têm capacidade para resolver esse problema. Quem é que tem? Os extraterrestres?", ironiza, constatando que "falta, sobretudo, vontade política".

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