Bob Dylan faz trinta por uma linha no seu novo Triplicate

Três em um. Ou seja, três CD integralmente preenchidos com versões. Aí está como um laureado com o Nobel faz render o peixe, mas não consegue livrar-se de todas as espinhas.

Faça-se uma auscultação à opinião pública, mesmo sem pretensões de caráter científico, e a resposta tornar-se-á categórica: Dylan conseguirá, numa larga percentagem das respostas, uma cotação mais alta como autor do que como intérprete. Agora que passam 55 anos desde que gravou as suas primeiras criações, agora que chegou onde nenhum outro poeta de canções tinha ousado aportar um dia (sim, é do Nobel da Literatura), o veterano - que caminha a passos largos para os 76 anos - decide continuar a gozar o prato, saboreando com inegável prazer e com imaginável sarcasmo o seu papel, repetido mas ainda eficiente, de agent provocateur.

Porquê? Descontadas as rábulas do "recebe ou não recebe o Prémio", "vai ou não vai à cerimónia", "realiza ou não a alocução que lhe permita sacar o dinheirinho", há um motivo muito mais próximo: meio século depois de um acidente de moto contribuir para lhe modificar radicalmente o timbre vocal, Bob continua a brincar com a lógica, ao publicar o terceiro disco consecutivo na condição de intérprete, dando sequência às aventuras de Shadows in the Night (2015) e de Fallen Angels (2016). Ainda por cima em dose tripla (vá lá, apenas dupla no preço...), se bem que todas as três dezenas de canções de Triplicate não ultrapassem muito os 96 minutos de duração. Se recuarmos até Christmas in the Heart (2009), verificamos que, num momento em que se devia celebrar o criador, acima de tudo, e em que efetivamente este obtém reconhecimentos e distinções inéditos, Dylan gasta metade dos seus registos deste século a cantar temas alheios e não nos oferece uma cançãozinha própria desde o registo de Tempest, de 2012...

Quando entra em cena Triplicate, o primeiro protesto pode muito bem ser formal: na edição que me serve para a escuta e para a consulta, Bob Dylan, o tal autor consagrado, mostra algum esquecimento (ou sejamos claros: desrespeito) pelos seus pares. Vai buscar, ao património de terceiros, nada menos de trinta canções, mas não indica os nomes dos responsáveis por letras e músicas. Não se pense, no entanto, que os deixa de fora por serem menores - aí estão Irving Berlin, Jerome Kern, Harold Arlen, Sammy Cahn, Jimmy van Heusen (muitas vezes), Cy Coleman, Joagy Carmichael, Johnny Mercer, Rodgers & Hammerstein para se perceber até que ponto é convocado um dream team dos anos dourados do Songbook norte-americano. Mas o que se torna incoerente é, diante de uma equipa de primeiras linhas, optar por não os nomear, o que deveria ser feito um a um, com aplausos intercalares. Há mais: algumas das canções abordadas integram os "imaginários", distintos e/ou coincidentes, de muitos: acontecerá com Stormy Weather, My One and Only Love, As Time Goes By (a canção do filme Casablanca), How Deep Is the Ocean, The Best Is yet to Come, These Foolish Things ou You Go to My Head, para só citar as mais óbvias. Ora, de uma forma ainda mais explícita nestes casos, Dylan submete-se a muitas comparações e a muitas memórias. E nem sempre sai bem da fotografia...

Fórmula resolvente

Reconheça-se-lhe a coragem de vir ao terreno onde marcam presença os mais fortes (parte das canções que integram o elenco de Triplicate passaram pela voz definitiva de Francis Albert Sinatra) e o seu concretizado propósito de manter a fasquia bem alta. Mas, apesar da forma como se defende (também por não ter outra forma de abordar os clássicos) nas vocalizações, Dylan fica longe do superlativo que tantas vezes conseguiu quando se dedicou a colheitas próprias. Ele não é capaz de fazer de My One and Only Love a canção doce e ingénua que conhecemos na voz de Rickie Lee Jones; não consegue em Stormy Weather o grau de subversão que lhe foi injetado, por exemplo, por Carmel; não consegue uma abordagem original - ou sequer "limpa" - a You Go to My Head como a alcançada por Mathilde Santing - e em qualquer dos três casos, estamos a a falar de vozes que não vêm do jazz. No limite, para se dirigir a esta escola de cantigas, Dylan precisaria, para uma vitória inequívoca, de um cuidado diferenciador, como aquele que foi aplicado por Rod Stewart, quando decidiu "arrumar as chuteiras" rock e calçar as botas "de montar" para aqui se dirigir.

Dylan aplica, na voz como na instrumentação (onde aplica um swing sem riscos nem ousadias, a beneficiar ainda assim das inquietações das guitarras de Charlie Sexton e de Dean Parks), uma fórmula resolvente que, não soando desagradável, talvez não mereça figurar ombro a ombro com os registos dos seus melhores momentos, aqueles que efetivamente inquietam ou embalam, questionam ou apaixonam. Aqui, temos direito a algo que nunca terá figurado entre os objetivos de mestre Bob: música bem feitinha, sem mancha mas também sem cor que impressione por aí além.

Para os standards, sejamos francos, as alternativas são várias e poderosas. E depois, há sempre Ella Fitzgerald... Aqui, são mesmo trinta por uma linha. Mas, ao contrário do que denuncia a expressão, isso não é sinal, sequer, de malandrice. Até porque é sempre a mesma linha.

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