Bienvenue ao cante alentejano em Paris

O Rancho de Cantadores de Paris começou como preparação para uma peça de teatro inspirada nas touradas e ganhou vida própria. Já acompanhou Kátia Guerreiro e cantou com Ricardo Ribeiro. O documentário sobre o grupo tem estreia marcada para outubro, no Doclisboa

Com menos de um ano de existência, o Rancho de Cantadores de Paris está a desmontar os estereótipos associados ao cante alentejano e a levar a música tradicional portuguesa a novos públicos. Longe dos campos de trabalho do Alentejo, este grupo constituído por portugueses, franceses, uma italiana e um franco--argelino mostram que a música ultrapassa a barreira da língua e da nacionalidade. A próxima etapa é recrutar novos membros e apostar no aperfeiçoamento técnico.

Carlos Balbino está na origem da ideia de formar na capital francesa um grupo de cantadores. Ator, dramaturgo, encenador e diretor de uma companhia de teatro, Carlos é de Cascais, mas mudou--se para Paris há 6 anos, depois de ter concluído o conservatório em Londres. O grupo de cantadores surgiu primeiro como uma parte do seu projeto La Dernière Corrida, uma peça sobre as touradas no Alentejo, mas rapidamente se autonomizou. "Chegou a uma altura em que separei as criações e disse aos nossos sete membros: o que é que fazemos com os ensaios de cante? Fomos convidados para cantar com a Kátia Guerreiro e com o Ricardo Ribeiro no festival Villes des Musiques du Monde e isso deu-nos confiança para continuar", explicou Carlos Balbino ao DN.

O projeto ganhou novo impulso depois de uma ida do grupo à Rádio Alfa, rádio portuguesa em Paris. Tiago Pereira, realizador e pai do projeto A música portuguesa a gostar dela própria, ouviu-os e decidiu vir conhecê-los. "Mal viemos cá a Paris em fevereiro, entrei logo em contacto com a Câmara Municipal de Serpa de forma a ter apoio para eles irem lá. Era importante para eles irem ao Alentejo para sentirem a dimensão do que estavam a cantar. E eles foram quatro dias em abril, estiveram com nove grupos de cante diferentes e foi algo profundamente emocionante", relembrou o realizador.

Sem saber português

Na Residência André de Gouveia cruzam-se nacionalidades e vozes numa melodia intensa cantada em português

O DN assistiu ao ensaio e casting dos novos membros deste grupo que se junta todas as terças-feiras na Residência André de Gouveia (Maison du Portugal), na Cité Internationale Universitaire de Paris. Na sala reinava o típico nervoso miudinho da descoberta, mas o vinho verde serviu para quebrar o gelo e o cante foi o mote da conversa entre os mais experientes e os novatos.

Quando se juntou ao grupo no ano passado, a primeira pergunta na cabeça de Giulia, atriz italiana radicada em Paris, foi como seria aprender a cantar música tradicional numa língua desconhecida. "Era uma língua que não conhecia de todo, mas ao cantar senti-me tão cheia de vida que decidi continuar. Claro que em abril, quando fomos a Portugal, fiquei completamente apaixonada pelo Alentejo", afirmou a italiana que quer agora começar a aprender português.

É também o caso de Clementine. Esta francesa de 25 anos teve dificuldades ao início com o sotaque, mas rapidamente se deixou encantar pelo cante. "Eu não conhecia nada de Portugal e agora já percebo a língua, a cultura, a gastronomia... E mesmo o estado de espírito das pessoas. Adoro o cante por ser um verdadeiro coro muito sólido de onde de vez em quando surgem vozes extraordinárias", explicou ao DN.

Mais experiente nas andanças do cante, mas pela primeira vez a ensaiar com o grupo, Carlos, de 52 anos, arriscou uma desgarrada dizendo no final: "Não sei se sou eu que tenho de me adaptar a vocês ou vocês que vão ter de se adaptar a mim." A viver em França há dez anos, este serralheiro originário de Aldeia Nova de São Bento, Serpa, não escondia a felicidade por voltar finalmente a cantar. "Por incrível que pareça, e tenho a mãe e os irmãos em Portugal, o que mais sentia falta era do cante alentejano. Fez-me um mal terrível. Até pus um anúncio para tentar começar um grupo quando cheguei aqui, mas não tive sorte", confessou.

Para experimentar o cante pela primeira vez vieram Stebán e Paulo. O casal franco-brasileiro conheceu-se em Portugal, numas férias em Lisboa, mas vive agora em Paris. Para Paulo, neto de portugueses da Lousã, o cante era completamente desconhecido, mas o primeiro ensaio promete. "É tudo muito novo, mas acho que sou capaz de acompanhar e achei que foi um momento muito agradável", afirmou.

O "verdadeiro" cante

O fim das atuações do grupo acaba inevitavelmente com elogios, lições de gramática e dicas dos alentejanos radicados em Paris, mas também com críticas. "Dizem-nos que cantamos porque é moda, porque se tornou Património Imaterial da Humanidade, que um grupo de cante misto é complicado, mas o cante deu uma direção diferente à minha vida e os estrangeiros que estão no grupo estão cada vez mais apaixonados", disse Carlos Balbino.

João, vindo do coração de Serpa, reconhece a estranheza. "Quando os ouvi pela primeira vez achei que tinham força de vontade, achei fantástico, mas não é a verdadeira pronúncia, nem o verdadeiro cante alentejano. Mas gosto de os ouvir e quis logo cantar com eles", reconheceu.

A experiência de juntar portugueses e estrangeiros num grupo de cante a dois mil quilómetros da sua terra de origem está a ser documentada por Tiago Pereira e vai estrear na sala de cinema em outubro, no Doclisboa. Para o fim de setembro, o grupo tem já agendada uma atuação em parceria com o Instituto Camões em Paris, durante o Festival Semaine des Cultures Étrangères.

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