Basileia. O taxista com crédito já fez negócio

Colecionadores de arte andam num desassossego na maior feira de arte do mundo. Liu Yiqian já comprou um quadro com dez metros de largura. Custou-lhe três milhões de euros

Foi um dos primeiros negócios da Feira de Arte de Basileia, na Suíça. Muitos olharam para o enorme quadro digital do autor alemão Gerhard Richter mas foi Liu Yiqian quem o comprou - e logo mostrou ao mundo numa foto na rede social WeChat. A obra chama-se 930-7 Stripe, tem dez metros de largura e custou ao multimilionário chinês três milhões de euros.

Yiqian é um dos ávidos colecionadores que se passeiam por estes dias em Basileia. O taxista que ficou milionário a comprar obras de arte com o cartão de crédito, continua a alimentar o seu Long Museum. Quando, em novembro, comprou o Nu Deitado, de Modigliani, por 159 milhões de euros num leilão da Christie"s de Nova Iorque, num recorde mundial, disse: "A mensagem para o Ocidente é clara: Comprámos os edifícios deles, comprámos as empresas deles e agora vamos comprar a arte deles."

Esta é apenas uma das peças do xadrez que se joga em Basileia. A maior feira de arte do mundo termina amanhã mas os maiores negócios foram feitos logo nos primeiros dias, quando os grandes colecionadores foram convidados a visitar as obras de arte contemporânea das principais (286) galerias de 33 países. Em Basileia estão representados quatro mil artistas de todo o mundo.

Um dos negócios mais expressivos foi a venda do quadro First Window Painting (1981) do artista minimalista americano Brice Marden por quatro milhões de euros. A peça saiu da galeria nova-iorquina Mnuchin. Um pouco menos - 3,1 milhões - foi o valor de venda de um desenho 3D de Tom Wesselmann, For Still Life #47 pela Galeria Acquavella, também nova-iorquina. "Creio que a venderam na primeira meia hora", desabafou, desapontado, o colecionador americano Edward Minskoff. "É uma das melhores peças que vi hoje, especialmente se gostas de Wesselmann."

Mercado sólido

É aqui que se fazem os grandes negócios do mundo da arte. Marc Spiegler, responsável pela feira, admite que o clima económico na Europa não é o mais favorável. Mas tem outras certezas: "se [as galerias] não conseguirem vender as grandes obras em Basileia, não podem vendê-las em mais lado nenhum", disse ao The New York Times.

Vários analistas vão já soprando sinais otimistas dos primeiros (e decisivos) negócios da feira. Apesar de não haver fila para as famosas salsichas - reporta a especializada Blouin Artinfo - "o mercado está muito forte e sólido mas... o ambiente não é tão frenético como há seis meses. Não há um sentimento de urgência [em comprar]", disse Robert Manley, que já esteve na Christie"s America e agora é executivo na Philips.

Entre as tendências deste ano, uma curadora nova-iorquina disse ao New York Times que nota que as galerias "estão a trazer mais material histórico e menos novos artistas". Heather Flow diz, no entanto, que as galerias não estão forçosamente a baixar os preços dos novos trabalhos.

Entre os artistas vivos, há nomes quentes. Como Kerry James Marshall. O norte-americano de 60 anos viu ser vendido na Suíça (através da Jack Shainman, de Nova Iorque) o pequeno painel em PVC Untitled (Looking Man) (2016) por 311 mil euros. O artista, sediado em Chicago, é um dos nomes da moda nos EUA e terá a maior retrospetiva da sua carreira no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, a partir de outubro. A Jack Shainman garante que vendeu três obras nos primeiros 15 minutos da feira, num valor de 800 mil euros.

A seguradora Axa Art estima que três mil milhões de euros em obras de arte estejam presentes na 47.ª edição da Feira de Arte de Basileia - que é vista por muitos como um barómetro para o segmento das galerias no mercado da arte, que representou 53% do total do bolo total em 2015.

Suspense até à última com um quadro de Jackson Pollock de 1949, presente nas paredes da Galeria Mitchell-Innes & Nash. Custa 22 milhões de euros e ainda não tem comprador. Mas há "duas ou três pessoas" interessadas, diz David Nash, um dos sócios...

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