BAFTA "corrige" previsões para os Óscares

Entre as nomeações de atrizes e atores pela Academia de Cinema do Reino Unido, talvez a surpresa mais bonita seja encontrar a atriz Annette Bening.

A corrida tem sido intensa. De um lado a fantasia romântica de Guillermo del Toro, do outro a tragicomédia social de Martin McDonagh. Grosso modo, tudo se resume a isto. A Forma da Água e Três Cartazes à Beira da Estrada, respetivamente, são os títulos que cimentam o favoritismo nesta temporada de prémios, chegando amanhã à 71.ª cerimónia dos BAFTA com um embalo muito semelhante, apesar da liderança do filme de Del Toro, com 12 nomeações. Para que lado vai pender desta vez o gosto da Academia de Cinema do Reino Unido?

Especulações à parte, a grande novidade desta noite de gala - a decorrer no Royal Albert Hall, em Londres - é que terá uma mulher como anfitriã. A atriz britânica Joanna Lumley, conhecida pela série Absolutely Fabulous, irá substituir o comediante Stephen Fry, que, depois de apresentar 12 vezes a cerimónia, anunciou em janeiro que estava na hora de passar o testemunho. Num início de ano ainda marcado pelo destaque das vozes femininas contra a supremacia masculina na indústria cinematográfica, não calha nada mal...

Considerada a versão inglesa dos Óscares, os BAFTA (que se estima partilhar 500 dos seus votantes com a Academia de Hollywood, num universo de cerca de 7000) acabam por funcionar, em termos mediáticos, como um termómetro dos ânimos para a cerimónia americana. Mas este é mais um fenómeno psicológico do que outra coisa, uma vez que a história tem contrariado algumas vezes as expectativas. Veja--se o caso do ano passado, em que La La Land, de Damien Chazelle, saiu dos BAFTA como o grande vencedor da noite para depois ser "atropelado" por Moonlight, de Barry Jenkins, que arrecadou a estatueta de melhor filme do ano, numa atribulada circunstância de enganos na entrega.

Para todos os efeitos, convém não perder de vista a nacionalidade destes prémios. Precisamente por essa razão (ou, em grande parte por ela), A Hora mais Negra, de Joe Wright, filme que celebra a figura icónica do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, é outro dos títulos bem encaminhados desta edição dos BAFTA, com nove nomeações - as mesmas que Três Cartazes -, encontrando-se, assim como o último, tanto na categoria de melhor filme como na de filme britânico. E no âmago da simpatia por esta produção está Gary Oldman, no papel carismático que lhe tem dado muitas alegrias, e parece estar destinado a desviar as atenções da magnetizante interpretação de Daniel Day--Lewis em Linha Fantasma.

Entre as nomeações de atrizes e atores, talvez a surpresa mais bonita seja encontrar Annette Bening. Depois de ter sido redondamente ignorada nas restantes levas de prémios, vemo-la enfim ser reconhecida pela sua magnífica composição da femme fatale da Hollywood clássica Gloria Grahame (1923-1981), no crepuscular filme As Estrelas não Morrem em Liverpool. A seu lado, já se sabe, Frances McDormand a fazer de si própria em Três Cartazes não dá grande margem à concorrência, apesar da superior subtileza de Bening...

Por outro lado, na realização, faz--se notar a ausência de Greta Gerwig, que nos Óscares é a única mulher nomeada nessa categoria, e aqui, com o seu Lady Bird, conseguiu apenas indicações para o argumento e para as atrizes, Saoirse Ronan e Laurie Metcalf. Em todo o caso, há outras mulheres realizadoras nomeadas, como Angelina Jolie, por Primeiro, Mataram o Meu Pai, ou Dorota Kobiela, que coassina a animação A Paixão de Van Gogh com Hugh Welchman - conseguirão destronar a preciosidade mexicana da Disney Coco?

Um dos nomes sonantes da noite, à parte dos óbvios, poderá ser também o jovem Timothée Chalamet, protagonista de Chama-me pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino, que reencontramos na corrida pelo prémio de melhor ator e pelo título de estrela em ascensão, votado pelo público.

Mas, e se a noite for do urso mais adorável de Londres? Paddington 2 é mesmo o melhor filme britânico do ano...

Cinco favoritos por João Lopes

Dizer que os BAFTA são uma "antecipação" dos Óscares é uma facilidade jornalística que, em boa verdade, tem uma fundamentação estatística pouco consistente (aliás, tal como acontece com os Globos de Ouro da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood). Ainda assim, é um facto que os prémios da Academia Britânica de Cinema são os que mais se "cruzam" com os que são atribuídos pela Academia de Hollywood - afinal de contas, há muitas décadas que os estúdios britânicos são uma fundamental base de sustentação da indústria americana, desde logo no importantíssimo setor dos efeitos especiais. Sintomaticamente, a produção "caseira" encontra nos BAFTA uma festiva câmara de eco, neste ano privilegiando títulos como A Hora mais Negra e Dunkirk (sem surpresa, o primeiro surge mesmo como candidato a filme do ano e a filme britânico do ano). Previsões? Sempre falíveis. Mas vale a pena destacar os cinco nomeados a melhor filme do ano, recordando como se têm comportado na temporada de prémios.

Chama-me pelo teu nome

Ainda em novembro, o filme de Luca Guadagnino foi um dos primeiros vencedores da temporada, sendo eleito melhor do ano nos Gotham Awards (independentes) e pela associação de críticos de Los Angeles. Esta associação considerou Timothée Chalamet como melhor ator, enquanto os argumentistas deram a James Ivory o prémio da categoria de argumento adaptado. Encarado, a certa altura, como um concorrente forte aos Globos de Ouro, saiu da cerimónia a zero.

A hora mais negra

Eis um facto que se renova de ano para ano: muitas entidades que atribuem este tipo de prémios continuam empenhadas em valorizar o trabalho "mimético" de intérpretes como o inglês Gary Oldman (imitando os tiques e poses de Winston Churchill). Ele tem sido, afinal, a bandeira do filme em quase todos os contextos, tendo arrebatado os importantes prémios de melhor ator atribuídos nos Globos de Ouro, Critics" Choice Awards e pela SAG (associação de atores) - reaparece aqui como favorito absoluto.

Dunkirk

Consiga ou não distinções significativas, este filme surge como o símbolo mais exemplar da colaboração entre americanos e britânicos. Ou seja: uma grande produção à maneira de Hollywood com assinatura de um inglês, Christopher Nolan. Em qualquer caso, os seus resultados na temporada de prémios são modestos, tendo apenas recebido (para Lee Smith) o troféu de melhor montagem num filme dramático. Nolan está nomeado na categoria de realização e pode muito bem ganhar "em casa".

A Forma da Água

Se é verdade que a temporada de prémios vai consolidando o favoritismo de alguns títulos, então este é, claramente, o que surge na linha da frente. Eleito melhor filme do ano no Critics" Choice Awards, recebeu ainda duas distinções altamente significativas nesta temporada (e também na antevisão dos Óscares): foi distinguido também como melhor filme do ano pela associação de produtores e valeu a Guillermo del Toro o prémio de melhor realizador da Directors Guild (associação de realizadores).

Três Cartazes à Beira da Estrada

A par de A Forma da Água, este é o outro líder das "intenções" de voto. Melhor filme (categoria: drama) nos Globos de Ouro, ganhou ainda o prémio de melhor elenco atribuído pela associação de atores, entidade que também distinguiu Frances McDormand como melhor atriz. Em todas as previsões finais para os BAFTA e Óscares, McDormand emerge como vencedora "antecipada" - se tal acontecer nos BAFTA, será a sua primeira vitória (com a quarta nomeação).

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