Atomic Blonde: O mais simpático dos refrescos de verão

Esta semana chega aos cinemas Atomic Blonde- Agente Especial, de David Leitch, baseado na novela gráfica The Coldest City. Charlize Theron suprema como heroína de ação num divertimento de verão com planos sequência topo de gama.

Atomic Blonde, de David Leitch, baseado na novela gráfica The Coldest City, estreia-se nesta semana
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O que é uma cena de ação vertiginosa hoje em dia em Hollywood? A pergunta pede reflexão. Pensamos no último Mad Max, de George Miller, e sorrimos com esperança. Olhamos para o díptico John Wick (ambos os filmes tiveram supervisão "artística" na pancadaria de David Leitch, o responsável por este Atomic Blonde) e ficamos também tranquilos. De resto, há um marasmo criativo, uma recorrente inclinação de nostalgia saturada dos anos 1990. Filmes de ação sem ideias, barulhentos e sem garra.

Este Atomic Blonde, sem fazer nenhuma revolução, é um bom exemplo de uma tentativa de trazer sangue fresco ao género. É também um objeto com consciência própria das suas limitações e com sensatez para ter sempre uma récita de autoparódia. As coreografias dos combates e a escala do desenho de stunts tem uma ligeireza pop que convence, ao mesmo tempo que convoca alguma adrenalina.

O gancho feminista cool não se esgota logo na premissa - há mais um subtexto. A agente do título, uma Charlize Theron com um carisma semelhante ao que espalhou em Velocidade Furiosa 8, é chamada pelos serviços secretos ingleses e americanos para resolver um problema na Berlim do final dos anos 1980, um pouco antes da queda do muro. Ela terá de descobrir quem matou um ex--namorado seu, também agente secreto. Um assassino que poderá vender informação secreta explosiva. Tão secreta que poderá fazer explodir uma bomba em plena Guerra Fria. Pelo caminho, percebe que do lado ocidental do muro há quem queira sabotar a sua missão.

Charlize despacha tudo e todos aos tiros e aos pontapés e ainda tem tempo para ter um romance lésbico com a agente secreta francesa. Ela é demasiado sexy para a oferta masculina. Obviamente, há um perfume de farsa em tudo isto. O filme não se leva a sério mas o bailado da pancadaria é um mar de rosas para os geeks do cinema deste género. De certa maneira, há aqui uma elegância na coreografia de ação que é quase ballet ao lado de outros produtos grunhos do cinema americano. Neste caso, ballet em forma de teledisco (e sem receios de ultraestilização...).

Importa também lembrar que Leitch, antigo coreógrafo de duplos, depois do sucesso do que conseguiu em John Wick (não estava propriamente acreditado como realizador), é nesta altura um dos nomes mais procurados de Hollywood. A indústria olha para ele como um mestre da ação, um mago capaz de inventar um novo estilo, não sendo por acaso que foi chamado para ser o realizador de Deadpool 2. Com Leitch, os espiões são heróis de ação. Aliás, não é de mau tom descrever o filme como uma pequena sátira à espionagem clássica. Só se lamenta a habitual preguiça da estética jukebox, em que cada sequência é movida com canções. Canções pop dos anos 1980 postas numa catadupa desenfreada que acaba por anular todos os efeitos de surpresa.

Atomic Blonde, apesar de alguns defeitos, é entretenimento bem divertido. Por vezes, parece um espetáculo de dança contemporânea danado para a brincadeira. Noutras, uma fantasia alucinada sobre o fetichismo do europop. Nada contra, mas Charlize Theron é sempre mais sexy do que o próprio filme.

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