Até a rainha de Inglaterra emprestou um quadro ao Prado

Das 40 obras conhecidas de George de La Tour, o museu espanhol apresenta 31, a maior mostra antológica de sempre do pintor

Seria preciso visitar 22 cidades, sete norte-americanas e 15 europeias, para ver cada um dos 31 quadros do pintor francês Georges de La Tour que desde terça-feira ocupam a sala de exposições temporárias do Museu do Prado, em Madrid. E, mesmo assim, não seria garantido poder apreciar todas as obras do artista: três fazem parte de coleções privadas, e uma destas, São Jerónimo Lendo, pertence a Sua Majestade, a rainha de Inglaterra.

Não sendo um dos primeiros nomes que nos ocorrem quando se pensa em pintura francesa, é um dos artistas mais amados e admirados pelos franceses. E a atestá-lo está o recorde de visitantes que mantém desde 1997, ano em que o Grand Palais, em Paris, lhe dedicou uma exposição: 530 mil pessoas fizeram questão de ir conhecer a obra deste pintor que trabalhou na primeira metade do século XVII.

Dimitri Salmon, conservador do parisiense Museu do Louvre, que comissaria a exposição Georges de La Tour. 1593-1652 juntamente com Andrés Úbeda, chefe de Conservação de Pintura Italiana e Francesa do Prado, explicou esta atração dos franceses pelo artista: "É o mais querido porque emociona e desconcerta. Todo ele é um mistério que não se esgota, um problema que tentamos resolver desde há menos de um século", disse durante a visita à imprensa, citado pelo jornal espanhol El País.

O esquecimento em que a obra do pintor caiu é o problema a que se refere Salmon. Não são muitas as informações confirmadas sobre a sua vida desde que em 1915 o historiador de arte alemão Hermann Voss lhe atribuiu quadros com pinturas noturnas que antes se acreditavam ser ou de artistas da escola holandesa ou da espanhola, resgatando-o do esquecimento em que a sua obra tinha caído e atestando-lhe uma nova e importante fase de atividade.

Natural da região francesa de Lorena, sabe-se que o seu trabalho era muito popular entre as mais altas figuras da época: o cardeal Richelieu, o arquiteto Le Nôtre e o próprio Luís XIII, que, em 1639, o nomeia pintor do rei, possuíam obras suas. Tal como acontecia com muitos pintores nesta altura, parte da sua formação terá sido feita em Itália, entre os 17 e os 23 anos, numa época em que o maneirismo e a arte de Caravaggio estavam em voga. E uma das suas marcas pessoais é precisamente a forma como trabalha a luz, o claro-escuro tão luminoso que põe nas suas telas.

Exposição sonhada há dez anos

O Museu do Prado, proprietário de dois óleos do artista - Cego Tocando Sanfona, adquirido em 1991, e São Jerónimo Lendo Uma Carta, incorporado em 2005 após ter sido descoberto nos fundos do Ministério do Trabalho espanhol - começou a sonhar com esta exposição precisamente quando esse segundo quadro entrou em depósito na instituição, confessou o diretor, Miguel Zugaza.

E até 12 de junho estão reunidas numa só sala do museu da capital espanhola obras oriundas de 17 países, pertencentes a 22 instituições, entre as quais o Louvre, a alemã Gemäldegalerie, o J. Paul Getty Museum, de Los Angeles, a National Gallery of Art, de Washington, e o nova-iorquino Metropolitan.

Organizada por ordem cronológica, a exposição é constituída por três grandes núcleos. Em primeiro lugar surgem as suas obras mais antigas, retratos de figuras populares em que a miséria, a violência, a fome estão bem presentes. Aqui destaca-se a tela Comedores de Ervilhas, emprestada pela galeria alemã.

O segundo grupo reúne as suas obras mais luminosas, muitas delas inicialmente atribuídas à escola espanhola. As personagens retratadas são menos rígidas em relação à primeira fase de atividade e surgem em contextos menos extremos. É uma altura em que Georges de La Tour faz séries sobre o mesmo tema, mas nunca cópias. Pertencem a este período algumas das suas obras mais conhecidas, de temas como São Jerónimo penitente, Maria Madalena e tocadores de Sanfona. Destaque para A Fortuna, emprestada pelo Metropolitan, e para A Madalena Penitente em Frente ao Espelho, vinda da National Gallery of Art de Washington.

Por último surgem as suas cenas noturnas, também com temas tratados em séries de quadros que nunca se repetem exatamente, e as suas telas religiosas, embora com um toque laico, como a sua representação do nascimento de Cristo da qual está ausente São José, ou o São João Baptista no Deserto, uma pintura monocromática carregada de mistério e silêncio, proveniente do Museu Georges de La Tour de Moselle.

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