As cidades que têm direito a escritores

Salman Rushdie esteve em Lisboa e não deixou de se sentar ao lado de Fernando Pessoa. Um poeta que, como Sophia de Mello Breyner, identifica Lisboa.

Será possível conhecer uma cidade através de um romance? Esta é uma pergunta que nem vale a pena fazer porque a resposta é sim. Basta ler o sempre polémico romance Ulisses de James Joyce, escrito entre 1914 e 1921, para se confirmar que serve de guia ao labirinto de ruas, construções e locais da Dublim daquela época. Houve até quem dissesse que se acontecesse um terramoto e a cidade ficasse destruída, poderia ser reedificada a partir da leitura da obra de Joyce.

Não é que os escritores que escrevem romances tendo uma ou outra cidade como cenário se preocupem em a descrever exatamente como é na realidade, mas há quem o faça de propósito como foi o caso do autor de policiais Stieg Larsson com Estocolmo na saga Millenium, cujo resultado é tão realista que foi criado um percurso para fãs na parte da cidade que descreve exaustivamente na sua trilogia, podendo-se reconhecer em visitas guiadas os locais da cidade onde decorre a ação dos seus livros. Aliás, os policiais têm esse magnetismo perante os leitores pois também Camilla Läckberg teve direito na Suécia a ter um percurso; em Londres, não é difícil a quem quiser percorrer a pé os locais onde se passam os livros de Agatha Christie e Conan Doyle, tal como em Paris os de Georges Simenon. O mesmo se pode dizer de Hemingway, uma memória sempre viva na cidade de Havana, com direito a uma estátua sentado ao balcão de um bar, uma pose semelhante à de outro bar em Veneza, o Harry"s Bar, que muito frequentou.

Pode-se usar um romance como guia para visitar uma cidade? Também aqui a resposta é sim, e não é preciso viajar mais do que cinco décadas para se ter o romance A Cidade das Flores, de Augusto Abelaira, como guia perfeito de Florença, rua a rua, bairro a bairro, onde decorre a aventura política e amorosa. Até os livros de Os Cinco, de Enid Blyton, fazem ótimas descrições da Inglaterra campestre.

Antes de se partir numa viagem com autores identificados com cidades, recorde-se que foi Heródoto quem fez o primeiro "guia" há 2500 anos e que Estrabão esteve na costa portuguesa 400 anos depois, registando a mais antiga geografia.

Sophia de Mello Breyner / A poesia feita com o nome de Lisboa

À capital portuguesa não faltam autores, bem como muitos poetas que a cantaram nos seus versos. É o caso de Sophia de Mello Breyner Andresen em vários poemas, como o que tem esse nome: Digo: / Lisboa / Quando atravesso - vinda do sul - o rio /E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse. Também o Nobel Saramago a utilizou integralmente na ficção em O Ano da Morte de Ricardo Reis e História do Cerco de Lisboa, Eça de Queiroz em Os Maias num retrato definitivo, Fernando Pessoa com um guia da cidade, bem como Lídia Jorge e Richard Zimler, entre outros.

E.M. Forster / Um guia eterno para Alexandria

Quando o escritor E.M. Forster chegou a Alexandria em 1915, como voluntário da Cruz Vermelha em plena Grande Guerra, teve grande dificuldade para se orientar na cidade e em saber o que valia a pena conhecer. Então, decidiu escrever um guia, que pouca gente leu porque a editora ardeu e os livros também. Palmilhou bastante a cidade para fazer o livro mas, ao regressar a Alexandria uns anos depois, perdeu-se e confessou que era uma triste situação para o autor de um guia. Divide-se num resumo histórico e num guia de ruas e monumentos a ver, que o tornou um símbolo da cidade.

Orhan Pamuk / A Istambul do Nobel na primeira pessoa

Há aqueles autores que usam uma cidade para localizar a narrativa e esses livros ficam tão identificados com a realidade geográfica e arquitetónica que passam a ser considerados guias dessas localidades. Há os que repetem tanto esse cenário que o conjunto da obra reflete a cidade onde se situa. É o caso de Orhan Pamuk e de Istambul, onde além de ter escrito as suas memórias como se fosse uma viagem através da história da cidade turca, faz questão de situar nela muitos dos seus romances. Em Memórias de uma Cidade, há dezenas de fotos e muitas particularidades da bela cidade do Bósforo.

Patrick Modiano / A intimidade total da Paris de outras guerras

Se o leitor estiver interessando em saber como era a capital francesa nos anos 30/40/50, antes, durante e depois da II Guerra Mundial, o autor mais indicado é o Nobel Patrick Modiano. Que mora em pleno centro de Paris e utiliza em todos - mesmo todos - os romances o mesmo cenário. Daí ser possível palmilhar a Paris daqueles tempos através dos seus livros, como na Rua das Lojas Escuras, onde circula com bastante à-vontade pela cidade: "O meu avô vinha buscar-me ao comboio. Havia um jardim público com grades em cimento como eu já vira na Praça da Gare." É o retrato perfeito de Paris.

Haruki Murakami / Tóquio, a subterrânea e a dos bairros da moda

Melhor do que qualquer autor japonês, Haruki Murakami descreve em todos os seus romances o Japão, com especial foco em Tóquio. Foi assim na trilogia 1Q84, onde tudo começa numa via rápida em viaduto e desce à cidade inteira, percorrendo imensas ruas, cafés, praças. Ou seja, descreve todo o quotidiano da capital e do Japão moderno, continuando a fazê-lo em romances como Kafka à Beira-Mar. Mesmo quando é um livro sobre a reconstituição do atentado no metro de Tóquio e os seus efeitos na mentalidade japonesa, o autor trata a capital como um protagonista literário.

Ruy Castro / 500 anos de vidas no Rio de Janeiro

Tudo começa no Carnaval de 2003, quando há uma onda de violência no Rio de Janeiro. A partir daí, Ruy Castro pinta um quadro de cinco séculos de História da cidade, em que situa todos os seus locais numa narrativa que percorre a cidade. Diz o autor que tudo o que acontece no Brasil tem repercussão no Rio de Janeiro e, talvez o contrário também seja verdade, como mostra neste percurso carioca. É a praia, o futevôlei, a Lagoa Rodrigo de Freitas, a Floresta da Tijuca, a macumba, o ultraleve, a capoeira... E, como não podia deixar de ser, o Carnaval. Está a cidade toda neste livro.

Charles Dickens / A mítica Londres nunca é esquecida

Londres... Quem é o autor que a identifica melhor? A resposta certa é uma pilha infindável de escritores. Os policiais de Agatha Christie e de Conan Doyle, com a inclusão dos aspetos mais sombrios. As descrições de Virginia Woolf de uma época em Orlando ou Mrs. Dalloway; as escapadelas dos personagens bucólicos de Jane Austen; as biografias de Peter Ackroyd com a narrativa do grande incêndio ou a vida de muitas das figuras da vida cultural londrina, a descrição de Rimbaud sobre a sua estada... Mas, talvez, ninguém a tenha descrito como Charles Dickens, em dezenas de títulos, afinal foi ele quem tornou a cidade identificável cada vez que a queremos recordar. Até na criação das personagens, como se pode ler em Oliver Twist ou David Copperfield. Não foi por acaso que Eça dizia ser o mais capaz de recriar as figuras que habitavam a Londres do seu tempo. Nem que fosse em fascículos, como em Os Cadernos de Pickwick.

Nikolai Gógol / Quem tem mão escreve sobre Roma

Se a intenção é pensar num escritor e logo numa cidade, Roma é das escolhas mais difíceis. Porque fascinou os que a partir do Renascimento para lá vão em busca da melhor arte, um magnetismo que permanece até hoje, como personagem central de thrillers de Dan Brown e companhia. Mas há um pequeno livro em que a cidade é descrita ao mais alto nível, o Roma, de Nikolai Gógol. Brilhante

Paul Auster / Nova Iorque de todos os autores e de mil livros

Nova Iorque é uma das cidades mais bem documentadas, mas, entre tantos, Paul Auster destaca-se por ter muitos romances com esse cenário. É a Trilogia de Nova Iorque. É o romance Palácio da Lua, onde o personagem Effing Fogg é despejado do apartamento na Rua 112 e deambula para o sul, chega a Columbus Circle, onde encontra uma nota de dez dólares que lhe fazia muita falta, segue para Times Square, vai ao cinema e dorme em Central Park. Em Música ao Acaso, dois personagens escolhem o OysterBar do Plaza Hotel. No Leviatã, Stillman e Quinn encontram-se no café Mayflower e há referências a Park Slope, local onde o escritor mora, e se inspirou numa tabacaria de esquina para o filme Smoke, em que Auggie tira uma fotografia da mesma paisagem na esquina entre a rua 3 e 7 todos os dias. E há as Torres Gémeas, onde Quinn faz o 13º telefonema do dia para um número falso, antes de apanhar o ferry para Staten Island.

Elena Ferrante / Nápoles pela autora (quase) mistério

O melhor exemplo de pensar numa cidade e autor em simultâneo é o caso de Elena Ferrante e o seu cenário geográfico preferido: Nápoles. O seu quarteto napolitano teve esse efeito em milhões de leitores de todo o mundo, pondo a longa distância todos os autores que até recentemente tinham escrito sobre aquela cidade. E não foram poucos! Ou seja, o melhor exemplo de livros sobre cidades.

Exclusivos