ENTREVISTA: "Encontrei no graffiti a minha identidade"

André Saraiva nasceu na Suécia onde os pais eram exilados políticos. Cresceu em Paris e descobriu no graffiti a sua maneira de se expressar. Diz que "artista" é uma palavra demasiado grande mas que sempre soube que queria "contar histórias através do desenho".

- Por que razão começou a fazer graffiti?

- Não sei responder. Foi uma nova expressão, encontrei nela a minha identidade, uma liberdade e uma maneira de mostrar o meu nome. De fazer parte da cidade. Sempre soube que gostava de desenhar e que gostava de contar histórias pelo desenho. Artista é palavra pesada mas sempre soube que era isto que queria fazer.

André Saraiva começou a fazer graffiti em meados dos anos 80, com 13, 14 anos nas ruas de Paris, a cidade onde vivia então, com outros jovens da mesma idade, precursores deste movimento de street art, como Invader ou Zevs. Na exposição no MUDE mostra a primeira multa que recebeu por pintar espaços públicos. Achou-a curiosa e quis mostrá-la.]

- É português, mas nasceu na Suécia em 1971. Cresceu em Paris, vive em Nova Iorque. Qual é a sua história?

- A minha mãe é dos Açores, o meu pai de Vila Nova de Famalicão. Conheceram-se em Coimbra. Fugiram do Salazar. Eram refugiados políticos na Suécia. Fui criado pela minha mãe. Mudei para França no início dos anos 80 e passei a adolescência em Paris. Nova Iorque é a minha base agora. É preciso saber viver assim. Pode existir discriminação. Sou um cigano.

[A exposição encerra com um conjunto de vitrinas que exibem objetos pessoais e de referência assim como diversas colaborações de André Saraiva com marcas de luxo. "O Estrangeiro", de Albert Camus, é um dos livros. "Sou assim, sempre um pouco estrangeiro em todas as partes", diz.]

- Quando estava a fazer a visita guiada à sua exposição apontou para uma porta [negra com ombreiras rosa], semelhante à de um clube noturno, e disse que os seus clubes [Club Baron] são parte do seu trabalho.

- Keith Haring fez a sua Pop Shop só com objetos e t-shirts com a sua obra. Gordon Matta-Clark foi o primeiro a mostrar o graffiti. Cortou-o e mostrou-o como obra de arte. Abriu um restaurante chamado Food, em Nova Iorque, onde trabalhavam artistas. Eram parte do trabalho como os meus clubes. Vejo-os sempre como parte do meu trabalho, mesmo que funcionem como sítios comerciais. No Beatrice Inn, em Nova Iorque, convidámos artistas para trabalhar no sítio, fazer o menu, pôr música, servir copos. Nos meus sítios os artistas não pagam.

- Usa muito o cor de rosa no seu trabalho. Como é que surgiu?

- Não era uma cor muito popular entre quem fazia graffitti. Estava relacionado com ser gay o que não estava, não está, muito bem visto entre os graffiters. Pensei "fuck you guys", vou usar. É uma cor alegre.

- Vai fazer um painel em azulejo, com símbolos de Lisboa, para a cidade de Lisboa. Por que razão escolheu símbolos como o elevador de Santa Justa ou o poema de Fernando Pessoa.

- Tem a ver com as minhas memórias e com os meus sonhos. É pintura pública e um desenho muito metafísico da cidade, da minha visão, com alguns símbolos que uso no meu trabalho. O nome da minha filha [Henrietta, fruto da relação com a música Uffie], o clube [Baron], o elevador que é de um francês, o Lux. Na verdade, o Frágil inspirou-me a fazer os meus clubes [em Paris, Nova Iorque e Tóquio]. É uma pintura sobre a minha relação com Lisboa e as pessoas portuguesas. E a nossa capacidade de nos adaptarmos. Temos uma boa maneira de nos adaptarmos... Eu... a dizer que nós temos uma boa maneira de nos adaptarmos [risos].

[O painel é uma colaboração do MUDE e de André Saraiva com a câmara municipal de Lisboa e a empresa Prébuild, que detém desde 2012 a centenária Fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego, de onde sairão os azulejos para o painel que o artista está a preparar e que deverá estar pronto no primeiro semestre de 2015. "Antes da exposição acabar, a 28 de setembro, já queremos mostrar uma parte", adianta a diretora do MUDE, Bárbara Coutinho sobre o trabalho que está a ser feito. Terá mais de ].

- Porquê em azulejo?

- Há 15 anos que quero trabalhar com azulejo, mas é muito caro. Temos muita sorte nesta colaboração. É ótimo fazer uma coisa que pode durar 10 ou 100 anos.

- Conhece graffitters portugueses?

- Conheço o trabalho de alguns. O que tem a exposição agora [Vhils, no Museu da Eletricidade] é amigo de uns amigos. Vi um mural dele em Los Angeles. Conheço mais brasileiros, eles eram mais ativos, sou amigo dos Gémeos.

- Ainda sai à noite para fazer graffitti?

- Às vezes (sorriso).

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