A reinvenção do 'graffiti' segundo Vhils

Alexandre Farto inugura hoje "Dissecação/Dissection" no Museu da Eletricidade, em Lisboa. Ou como trazer a cidade, e a arte da rua, para dentro de um museu.

Habituado a trabalhar fora de portas, em espaços abandonados, arruinados ou em vias de destruição, Vhils (nome artístico de Alexandre Farto) aceitou o desafio de criar uma exposição no Museu da Eletricidade, em Lisboa, mas fê-lo trazendo não só o seu trabalho mas a própria cidade para dentro do museu. Traz os cartazes que habitualmente encontramos afixados nas paredes, portas de madeira, placas de ferro, a evocação dos "ruídos da urbe" e das luzes do néon, e até uma carruagem do metro, completamente desmontada, mostrando os seus vários componentes numa obra que se chama "Dissecação", que é também o título da exposição que inaugura hoje.

"Pensámos muito no título da exposição e discutimos a ideia de autópsia, de abrir um corpo para ver os seus órgãos. Até chegámos a falar com um médico especialista em autópsias. E chegámos a esta ideia de "dissecação"", explica o comissário João Pinharanda.

O artista, de 27 anos, começou a fazer graffitis com 13 anos, com um grupo de amigos da Margem Sul. "Não tenho vergonha de assumir isso, foi muito importante. Foi quase a minha escola e foi também um processo de consciencialização do espaço e do que queria fazer. Comecei por fazer graffiti com amigos e estive muito tempo nesse circuito."

Vhils era o seu tag, ou seja, a sua assinatura. "Eram as letras mais rápidas que eu conseguia fazer. A ideia era assinar o trabalho mas não ser identificado. A palavra em si não tem nenhum significado, não significa nada em língua nenhuma, o que acabou por ser uma sorte", diz. Depois, quando começou a fazer outro tipo de peças, começou a assiná-las como Alexandre Farto. "Inicialmente era uma forma de distinguir o trabalho em graffiti do trabalho indoor. O nome de rua dava-me alguma independência para trabalhar noutras coisas. Mas as coisas foram-se misturando. Hoje em dia já não há essa separação."

"A certa altura, percebi que o graffiti se fecha bastante em si próprio e quis explorar outros caminhos", lembra. Vhils continua a desenhar e a fotografar mas hoje em dia é como um escultor que escava os materiais para inscrever/revelar imagens: "Os conceitos estão lá, mas estão escondidos. Às vezes basta uma faísca para os pôr à mostra", diz.

E explica: "Tudo vem de uma reflexão sobre o espaço público e da procura das primeiras memórias que tinha de arte no espaço público. E uma das coisas eram aqueles murais antigos, já desbotados pelo sol, já a cair de podres. Quando as imagens começaram a desaparecer, foram colados cartazes por cima, depois surgiram graffitis, depois a câmara mandou limpar tudo. Esses muros refletiam as mudanças que estavam a acontecer em Portugal, acumulavam história e via-se que a cidade estava a ficar mais gorda. Não me interessava ser mais uma camada sobre estas camadas todas. E foi então que surgiu a ideia de, em vez de pintar, esculpir e trabalhar sobre essas camadas. Escavar para revelar o que está para trás de mim."

Veja o processo de trabalho de Vhils:

É o tal "dissecar" por entre camadas, que é feito de forma cada vez mais sofisticada. A intervenção pode ser feita com um material cortante, uma ferramenta como um berbequim ou, mesmo, explosivos - tal como usou na intervenção nas antigas instalações da Lisnave, uma peça que é bastante significativa, pois Vhils quis revisitar um espaço que lhe estava muito próximo, onde cresceu, e que é exemplo da evolução recente do espaço urbano, e, além disso, optou por usar explosivos. "A destruição é uma forma de criação, é intrínseco à humanidade", explica.

Como artista que intervém na cidade, Vhils quer refletir no modo como o espaço influencia aquilo que somos e na relação que estabelecemos com a cidade. E é essa reflexão que faz nesta exposição, onde os visitantes são convidados a passear por uma cidade imaginária - a começar por um túnel escuro, com esculturas que surgem dos ecrãs de televisão coloridos, passando por uma enorme escultura de esferovite que só é possível apreender por completo subindo a um andaime, e depois passeando pelo vários módulos para descobrir as peças no interior. Sem esquecer a intervenção maior no depósito no exterior do edifício em que recupera os vários rostos que captou por todo o mundo e que se tornaram a sua imagem de marca.

Trabalha com muros, portas, ferro, esferovite, cartazes. Para ele não há materiais interditos. "Sempre explorei muito diferentes suportes, o material é um desafio, não é uma limitação. E gosto de subverter a lógica das artes, gosto de usar materiais que não são nobres, aquilo que a cidade expele, retrabalhá-los e recontextualizá-los, isso é algo que me interessa."

Até à inauguração, Vhils ia estar ainda a criar uma peça nova - uma intervenção sobre o pladur de uma das paredes da sala de exposições, um material com que pouco trabalho. "Vamos ver o que vai acontecer. Eu tenho uma ideia, mas tudo depende desta dança com os materiais. Há um lado imprevisível."

Um graffiter é, por definição, um artista do efémero. Isso não parece incomodar Vhils. "Faz parte da natureza da obra. A obra está no espaço público, está aberta à interação das outras pessoas, está exposta ao exterior. A maneira como as peças evoluem, essa efemeridade, torna-as mais humanas. Vão sendo alteradas por nós e nós por elas. Isso é muito interessante. A ideia de fazer algo eterno, uma obra que fica para sempre, não me fascina."

"Dissecação/Dissection" estará patente até 5 de outubro, e tem entrada gratuita.

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