Arte vudu e Macumba no Museu Vieira da Silva

Quando se juntam pedaços de madeira esculpida, bidões de gasolina velhos e pregos sob a forma de anjos e diabos, isso é... arte vudu. Para ver, em Lisboa, até janeiro.

Não há bonequinhos com alfinetes espetados, mas há Macumba logo à entrada da sala de exposições temporárias do Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva, em Lisboa, transformada numa espécie de pequena capela. O quadro, feito em 1946 por Maria Helena Vieira da Silva durante o exílio no Brasil, serve de mote para a mostra de 29 peças de arte vudu da coleção Treger/Saint Silvestre que por aqui se mostram até 22 de janeiro de 2017.

Todas oriundas do Haiti e na sua maioria compradas em Nice, a um galerista local, como contam Richard Treger e António Saint Silvestre, os dois colecionadores que há mais de 30 anos iniciaram a coleção de arte bruta e singular que desde maio de 2014 pode ser visitada na Oliva Creative Factory, em São João da Madeira. Ir ao Haiti para comprar estas obras não foi opção: "O galerista francês a quem as comprámos, a última vez que lá foi teve de levar uns dez homens como guarda-costas, e isso antes do terramoto de 2010, agora ainda é pior", explica o luso-italiano António Saint Silvestre, nascido em Nampula, Moçambique, há 52 anos. O terramoto deu uma outra dimensão a este núcleo: com os museus de Porto Príncipe a perderem muitas das obras, estas tornaram-se ainda mais raras.

Quase todas as obras têm um caráter religioso, misturando elementos do cristianismo, do hinduísmo, das crenças africanas e ameríndias. Algo que António explica facilmente: "na arte vudu, pintura e escultura são expressões populares e tradicionais de inspiração religiosa, e muitas vezes utilizadas como forma de passar mensagens divinas, bem como para celebrar acontecimentos históricos, cerimónias religiosas ou para honrar as personagens da mitologia vudu".

Originário da costa ocidental de África, o culto vudu estendeu-se às Caraíbas, sobretudo ao Haiti, e à América do Sul e do Norte, através do comércio de escravos. Mas as influências estendem-se ao imaginário literário ocidental: uma das várias figuras de Cristo desta exposição lembra o rosto de D. Quixote. É uma das cinco peças do haitiano Lionel Saint Eloi que, aos 66 anos, "é considerado um dos melhores artistas do Haiti", sublinha Richard Treger, natural do Zimbabué que, após uma carreira como pianista clássico, dedicou-se às artes plásticas, tendo mantido, com António, uma galeria de arte em Paris durante 20 anos.

Inesperados são também os materiais utilizados neste conjunto de obras: pedaços de madeira mais ou menos esculpidos aos quais os artistas, chamados bosmetal(trabalhadores de metal) - "quase sempre sem estudos nem formação artística", contextualiza António - juntam chapas de metal recortadas, por exemplo, de velhos bidões de gasolina, pregos, molas, panelas e tachos, pedaços de vidro. Entre diabos, anjos e santos uma grande figura humana prende as atenções. "É um bizango", explica António, acrescentando: "São guerreiros manequins, feitos de pano cosido e de ossos humanos desenterrados dos cemitérios". É com indisfarçável entusiasmo que conta a história por detrás da criação destes guerreiros: "A sociedade secreta Bizango do culto vudu no Haiti foi fundada no século XIX por escravos africanos e estes soldados foram criados para, simbolicamente, lutarem contra as tropas de Napoleão."

A surpresa provocada por estas peças é uma das características que António e Richard valorizam desde que há três décadas iniciaram a coleção de arte bruta e singular, uma opção pela arte que não se rege por correntes estéticas em vigor, "fora da caixa", como gostam de dizer.

Para além desta exposição de arte vudu, o Museu Arpad Szenes-Vieira da Silva apresenta também uma nova montagem da coleção permanente, dando a conhecer a público obras que ali foram recentemente depo-sitadas. É o caso de quadros da pintora oriundos da coleção de arte da Parvalorem (empresa que gere os ativos do ex-BPN), da coleção do Novo Banco e quatro novos quadros de Arpad Szenes, da sua fase surrealista dos anos 1930, depositados por um particular. Para a última sala guardou uma surpresa: Près du Delta, c. 1970, de Arpad, obra que nunca tinha saído das reservas.

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