Ariana Grande. A menina que não quer crescer

Com o compatriota Charlie Puth, forma o casal das atracções "juvenis" do último dia do Rock in Rio. Vai mostrar um disco recém-nascido, com apenas nove dias de mercado. E traz, como aval, uma presença de topo no Instagram

Gostava de ser Judy Garland, mas não é. Se buscarmos espíritos vizinhos, mais do que almas gémeas, deparamos rapidamente com Miley Cyrus, numa versão mais agressiva e desbocada, e com Demi Lovato, num modelo mais perturbado. Não será acaso que as integrantes desta trindade circunstancial nasceram todas com menos de um ano de intervalo - Lovato a 20 de Agosto de 1992, Cyrus a 23 de Novembro do mesmo ano, Grande a 26 de Junho de 1993, em Boca Raton, Flórida, Estados Unidos da América. Em comum, juntam também os respetivos passados de protagonismo em séries televisivas que pescaram - com rede, não à linha - nos inesgotáveis e entusiastas cardumes do público infanto-juvenil. Já quanto às influências musicais, o difícil, com esta cidadã americana de ascendência italiana, é mesmo conseguir excluir alguma das "colegas" mais velhas que a impressionaram e moldaram: Gloria Estefan, Whitney Houston, Mariah Carey, Alicia Keys, Christina Aguilera, Katy Perry, Beyoncé, e até - sem qualquer respeito pela "lei das incompatibilidades" - Madonna e Amy Winehouse. No meio deste turbilhão de proximidades, talvez o mais complicado seja mesmo apreender uma personalidade musical a Miss Grande, mesmo depois de publicados três discos, em que nem a pop nem o R&B, dominantes sobre alguns temperos Funk e hip-hop conseguem estatuto de "maioridade".

Provavelmente, isso não preocupa assim tanto a estrelinha: logo com o disco de estreia, Yours Truly (2012), Ariana conseguiu colocar-se no lugar cimeiro entre os mais vendidos, de acordo com a lista da Billboard, logo na semana de edição do álbum, que correspondeu a uma saída das lojas da ordem dos 138 mil exemplares. Em simultâneo, Grande tornou-se a 15ª cantora popular a ver o primeiro registo no topo dos topos logo que foi posto à venda. My Everything (2014) ultrapassou a fasquia das 700 mil cópias vendidas. De Dangerous Woman, com pouco mais de uma semana passada sobre o lançamento, já se assinalam um segundo lugar no top japonês e um primeiro no top britânico. Haverá, neste resultados, uma contribuição clara da voz da cantora, classificada no grupo das sopranos e capaz de "preencher" quatro oitavas. Mas, salvo erro, a maior fatia desta invejável popularidade prende-se com o culto da imagem que a cantora e os seus colaboradores conseguiram concretizar. Por exemplo, o seu canal no Youtube conta com mais de dez milhões de subscritores, o que lhe garante um impressionante 34º lugar entre os que angariam mais fiéis registados. Os seus videoclips foram "contactados" em 3,5 mil milhões (!) de ocasiões. As suas contas no Instagram, no Twitter e no Facebook também alcançam resultados esmagadores: 70 milhões de seguidores para a primeira (correspondente a um quarto lugar à escala universal), 35 para a segunda (17º posto), 25 milhões de "likes" para a terceira.

Broadway dos pequeninos e Nickelodeon

Depois de algumas aventuras precoces com coros e grupos teatrais escolares, depois de algumas incursões no karaoke, Ariana dispôs da sua primeira grande oportunidade quando foi chamada ao elenco do musical juvenil 13, de Jason Robert Brown. Foi por essa altura, aos 15 anos, que a joven abandonou os estudos. Foi na Broadway que os "olheiros" do canal Nickelodeon, virado para os mais novos, acabaram por descobrir a mocinha que haveria, por conta do seu papel na série televisiva Victorious (quatro temporadas e dois discos coletivos), de alcançar a notoriedade que ainda hoje está a render.


Em paralelo, Ariana começou de imediato a reclamar dos seus agentes a gravação de um álbum de R&B. Acabaria por ver esse sonho adiado, já que os conselheiros musicais não lhe reconheciam maturidade para uma descarada abordagem do género - reconheça-se que, apesar dos seus talentos, Ariana nunca mostrou arcaboiço semelhante ao de uma Joss Stone, essa sim capaz de aproveitar em pleno o fraseado e os pormenores do Rhythm"n"Blues em tão tenra idade. Resultado: quando Yours Truly foi publicado, Grande já tinha completado 19 anos e, ainda que de uma forma velada, começavam a agitar-se algumas preocupações em torno do prolongar de uma imagem de Lolita (retardada) que não condizia com a idade real da cantora. Até hoje, num momento em que Ariana se prepara para festejar o vigésimo-terceiro aniversário, pouco ou nada mudou. Mesmo que o título do novo álbum - Dangerous Woman - possa dar indicações de uma tentativa de crescimento, nem a música ganhou corpo e maturidade, nem há qualquer sinal de mudança no desenho da imagem transmitida em palco, como os presentes na sessão de hoje do Rock In Rio poderão confirmar.
Dangerous Woman mantém e e até reforça as debilidades dos anteriores compassos, com canções que cruzam o efeito instantâneo e a banalidade do efémero, com os produtores a tentarem puxar o desfecho em diferentes direções, em vez de rumarem a um objetivo concertante e uno. Sem coincidências, o momento mais forte de todo o álbum mora na canção Leave Me Lonely, mais encorpada, mais concisa, menos sujeito a "fogos de artifício"; sem acasos, essa distinção fica, em grande parte, a dever-se à presença inspiradora de uma parceira chamada Macy Gray... Chega, mesmo assim, para que a revista Time não hesite em colocar Ariana Grande na lista das cem personalidades mais poderosas para este ano de 2016. Aplica-se a esta esforçada dama a expressão em tempos criada para designar uma apresentadora brasileira de TV (Xuxa) - esta também uma "rainha dos baixinhos". Por falar em Brasil, por falar em Rock in Rio, o final da tarde de hoje traz dois momentos indispensáveis, noutro palco - Toni Garrido, antigo cantor do grupo Cidade Negra, vai cantar temas de Tim Maia; depois, Simoninha, filho de Wilson Simonal, chamará a si canções de Jorge Benjor. Aí, a música será outra.

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