Antigo Presidente da República, escritor de contos eróticos, recordado em filme

"Zeus" estreia-se esta quinta-feira no Cine Atlântico em Angra do Heroísmo

A história praticamente desconhecida de Manuel Teixeira Gomes, sétimo Presidente da República de Portugal, chega ao cinema pelas mãos de Paulo Filipe Monteiro, com estreia nacional esta quinta-feira, em Angra do Heroísmo, nos Açores.

"Esta é uma história real, mas talvez inverosímil", adiantou, em declarações à agência Lusa, Paulo Filipe Monteiro, sociólogo, argumentista e professor universitário, que se estreia como realizador de longas-metragens com "Zeus", um filme biográfico sobre Manuel Teixeira Gomes, que se centra sobretudo na sua partida para a Argélia, onde viveu os últimos 15 anos de vida.

Foi o "gesto de liberdade, de partir e largar tudo" do antigo Presidente da República que captou a atenção do realizador, mas, à medida que foi investigando o seu percurso, as suas facetas de político reformista e de escritor de obras eróticas, ou a sua paixão pelo Islão, confirmou que a vida de Teixeira Gomes dava um filme.

Paulo Filipe Monteiro descreve a personagem principal de "Zeus" como um "excelente presidente", reformista e com uma ação política coerente, apoiada nos homens da Seara Nova.

No entanto, a instabilidade da I República e a ascensão do fascismo levaram a que o mandato de Teixeira Gomes tivesse durado apenas 26 meses.

"Ele foi muito firme sempre, mas percebeu que o poder ia parar às mãos dos militares. Eu acho que não quis ser ele a entregar o poder aos militares", salientou o realizador.

Aos 65 anos, Teixeira Gomes decidiu sair de Portugal, num autoexílio voluntário, deixando para trás a família e uma vasta coleção de arte, e embarcou num navio de carga, chamado "Zeus", sem levar um único papel que o lembrasse da vida de escritor ou de presidente.

A atração que sempre teve pelo Mediterrâneo e pelos países árabes levou-o a instalar-se na cidade de Bougie, atualmente Béjaia, na Argélia, onde retomou a escrita.

"Felizmente começou depois a escrever cartas a Columbano [Bordalo Pinheiro] e depois ficção. Escreveu lá, no seu quartinho de Bougie, a obra-prima 'Maria Adelaide' [1938], que faz um dos blocos do filme", adiantou Paulo Filipe Monteiro.

Em cerca de dois terços do filme são utilizadas as próprias palavras de Teixeira Gomes, em cartas, livros e numa das últimas entrevistas que deu a Norberto Lopes, repórter do Diário de Lisboa, autor do livro "O exilado de Bougie", biografia do ex-presidente e escritor.

A história de vida de Manuel Teixeira Gomes é ainda praticamente desconhecida em Portugal, assim como o facto de ter sido escritor de livros eróticos ou que desafiavam os costumes, como "Inventário de Junho" (1899), "Cartas sem Moral Nenhuma" (1903), "Agosto Azul" (1904) e "Gente Singular" (1909), que chegaram a ser "dissecados" no parlamento, como arma de arremesso político.

"Pouca gente conhece que tivemos um Presidente da República destes, uma pessoa desta envergadura. Um presidente que tinha escrito livros eróticos, acho que é único no mundo", frisou o realizador.

Em Béjaia, Paulo Filipe Monteiro encontrou um liceu com o nome de Teixeira Gomes e um busto do antigo Presidente da República numa praça, tendo conseguido reconstruir a história de um empregado de hotel que o ajudou nos últimos anos de vida.

O filme demorou oito anos a ser feito, não só pela necessidade de reunir financiamento, mas também pela exigência da pesquisa, já que as biografias existentes praticamente não falam do tempo que o escritor passou na Argélia, onde escreveu "Novelas Eróticas" "Regressos" (1935), "Miscelânea" (1937) e "Carnaval Literário" (1938).

O filme de Paulo Filipe Monteiro, orçado em cerca de um milhão de euros, conta com apoios do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), da RTP e do governo argelino.

"Zeus" estreia-se em Angra do Heroísmo, no Cine Atlântico, em que serão exibidos de quinta-feira a domingo nove filmes portugueses da atualidade.

Para Paulo Filipe Monteiro, é "louvável" que o Cine-Clube da Ilha Terceira tenha organizado uma mostra de cinema que privilegia a produção nacional.

"Haja quem estime o cinema português. O público é reduzido. Sempre foi o calcanhar de Aquiles do nosso cinema. É ridícula a percentagem de portugueses que veem cinema português, comparado com Espanha ou com outros países da Europa", salientou.

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