Annette Bening: "a maior atriz viva"?

Nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, "Mulheres do Século XX", de Mike Mills, centra-se numa notável composição de Annette Bening.

Como não falar de Óscares? Não é verdade que chegámos à fase de todas as previsões e especulações? Pois bem, podemos garantir que Mulheres do Século XX (estreia hoje) é um dos grandes "vencidos" dos prémios deste ano, quanto mais não seja porque o seu valor primordial e eminentemente clássico - a saber: o elenco - ficou a zero nas nomeações da Academia de Hollywood.

A liderar o filme está uma das maiores atrizes contemporâneas (americanas ou não) que dá pelo nome de Annette Bening. Há poucos meses, numa entrevista a Matt Lauer, no programa Today (NBC), Warren Beatty arriscou mesmo dizer que ela é "a maior atriz viva"... Se descontarmos o facto de Beatty e Benning estarem casados há 25 anos, convenhamos que ele nos leva a olhar para o essencial. A saber: Benning tem o talento e a inteligência para continuar a construir uma carreira capaz de evitar a fixação em qualquer modelo dramático, ao mesmo tempo que assume no ecrã, com evidente gosto e invulgar desenvoltura, a sua idade (58 anos).

Essa disponibilidade (que é também uma forma de sinceridade) revela-se essencial para a composição de Dorothea, uma mulher de Santa Barbara, Califórnia, há muito separada do marido, que tenta educar o filho adolescente, Jamie (Lucas Jade Zumann, notável revelação), no ambiente pejado de convulsões emocionais e sociais do final da década de 1970.

Estamos, afinal, perante uma metódica decomposição, ora angustiada ora paródica, das regras do clássico melodrama familiar: os valores matriciais da família continuam a imperar, mas em boa verdade ninguém sabe muito bem quais os contornos do seu papel.

Nesta perspetiva, Mulheres do Século XX vai acumulando situações que julgamos conhecer nos seus contornos emocionais, ao mesmo tempo que descobrimos que ninguém se sente muito seguro porque, justamente, aquela é uma época de redistribuição das funções tradicionais de pais e filhos. Observe-se apenas o exemplo de Julie (Elle Fanning, sempre impecável), a amiga de Jamie que o visita entrando pela janela do quarto, que não é sua namorada, não procura sexo e gosta de dormir na cama dele...

Podemos definir Mike Mills, realizador de Mulheres do Século XX, como um herdeiro direto da vertente mais "romântica" do melodrama americano, de Vincente Minnelli a Douglas Sirk. Mesmo se acabamos por reconhecer nas suas personagens as marcas simbólicas de uma determinada época, isso nunca o leva a simplificar a complexidade das relações humanas, de acordo com uma lógica em que os intérpretes ocupam sempre o centro dos acontecimentos (Greta Gerwig e Billy Crudup completam o lote de figuras centrais).

Cinema "impossível" para a indústria dos super-heróis e afins? Enfim, talvez nem tudo esteja perdido, uma vez que o filme conseguiu uma nomeação na categoria de Melhor Argumento Original - o seu autor é o próprio Mike Mills.

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