Ana Cristina Silva: "Foi na feira que me veio a ideia do meu último romance"

A escritora Ana Cristina Silva lançou recentemente o romance Salvação. A ideia para o livro nasceu na Feira do Livro de Lisboa.

A feira é em si mesmo uma aventura em que muitos autores passam longas horas imaginando a história dos leitores que vão e seguem a sua vida e daqueles que ficam e se aproximam. Ninguém fala disso, só se fala da grande festa do livro, mas o livro é hoje em dia um objecto cada vez mais mediatizado em que o autor tem de ter a elegância de um conversador de salão.

Fico grata a cada leitor que se aproxima e posso sempre contar com a surpresa de actuais ou ex-alunos do ISPA quando me vêem num stand da feira: "Professora, está aqui, nem sabia que escrevia!". E vá de tirar uma selfie comigo, mesmo que não se interessem particularmente pelos meus livros e apenas queiram saber desse momento de efémera glória. Apesar do tom lamuriento deste início de crónica tenho uma leitora especial na minha vida. Essa senhora fez várias vezes cerca de uma centena de quilómetros para me ver na feira, levando-me sempre bolinhos. Uma verdadeira fã que sabe mais dos meus livros do que eu própria. Da última vez, recitou-me a frase inicial do meu primeiro romance, "Mariana, todas as cartas" e o a frase final do último que na altura era "A noite não é eterna".

Também foi na feira que me veio a ideia do meu último romance "Salvação". Conversava com um amigo que me foi visitar - as visitas de amigos são sempre importantes enquanto se espera pelos leitores - e ele tinha acabado de chegar de Bruxelas. Não me lembro a razão por que veio à baila o recente atentado no aeroporto. Acontece que Bruxelas é para mim uma cidade familiar porque trabalhei num projecto europeu. Por processos de identificação mete-nos sempre mais impressão o que nos é familiar. Tinha já escrito o esboço de um livro sobre o fundamentalismo religioso de católicos e judeus passado nos séculos XVI e XVII, misturando a figura ficcionada de um médico com personagens reais de Hamburgo como o médico português Rodrigo de Castro ou o filósofo judeu Uriel da Costa. Nessa altura quis ligar o fundamentalismo dessa época ao radicalismo jihadista actual e surgiu-me a figura do escritor que é a personagem principal do romance. Na feira do livro é sempre auspicioso sonharmos com um escritor.

O livro que eu queria encontrar na Feira: "Cassandra, de Christa Wolf."

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