Afastem os móveis da sala: voltou a boa música dos velhos tempos

Chega hoje às lojas o novo trabalho dos Cais do Sodré Funk Connection. Mais logo é também apresentado ao vivo, num concerto no Titanic sur Mer (ex-Maxime), em Lisboa

Estamos em Lisboa, em 2016, mas também poderíamos estar em Memphis, em Detroit ou noutra qualquer cidade dos Estados Unidos, algures entre o final dos anos 60 e o início dos 70. Se assim fosse, talvez os Cais Sodré Funk Connection estivessem hoje nessa galeria imortal dos clássicos da soul e do funk, lado a lado com James Brown, Aretha Franklin ou Marvin Gaye. O tempo e a geografia podem não ser os mais corretos, mas o espírito é o mesmo, como mais uma vez se comprova em Soul, Sweat & Cut the Crap, o novo trabalho da irmandade funk composta por João Gomes, Francisco Rebelo, Tiago Santos, João Cabrita, José Raminhos, Miguel Marques e Rui Alves, os instrumentistas de serviço que embalam as vozes de Silk e Tamin.

O coletivo lisboeta ultrapassa com distinção esse velho lugar-comum da indústria musical, conhecido como "a prova do segundo disco", à conta de temas como Take it Like a Man, Soul Lady, Ridin" a Funkin" Bike ou Like No Other, verdadeiras pérolas intemporais saídas da combinação dos talentos, musicais e poéticos, de Tiago Santos, João Gomes e João Cabrita.

Reza a lenda que tudo começou no Musicbox, ali para os lados do Cais do Sodré, na viragem da primeira para a segunda década do século XXI. Como um desafio, quase uma brincadeira, como lembra o saxofonista João Cabrita. "Começou com um convite do Alexandre Cortez, do Musicbox, que pediu ao Tiago Santos para formar uma pequena banda, de três ou quatro pessoas, que tocassem uns clássicos da soul e do funk para acompanhar vocalistas convidados", conta o músico. Mas os planos depressa saíram furados: "No primeiro concerto entrou o Silk e já não saiu mais, depois chegámos nós, para os sopros, e também ficámos e assim sucessivamente, até chegarmos a esta quase orquestra."

O laboratório Musicbox

Estiveram quatro anos Musicbox. Primeiro às quintas e depois também aos sábados, que depressa se transformaram em dias de festa e romaria para muitos. Entretanto, o culto foi crescendo, transformando-se num verdadeiro fenómeno. E, aos poucos, a banda de covers também se foi transformando em algo mais. "A evolução foi progressiva. Sempre tivemos a ideia de avançar para um projeto de originais, só que antes tínhamos de conhecer melhor a linguagem do funk, de estudar os clássicos. E ter a oportunidade de os tocar regularmente ao vivo foi muito importante nesse processo. Aprendemos muito nesse jogo com o público e o Musicbox funcionou um pouco como o nosso laboratório. É um privilégio ensaiar um tema, poder tocá-lo quase de imediato e ter logo a reação do público", afirma o vocalista, Silk. O mesmo sistema que serviu também para a banda testar os seus primeiros temas originais.

"A dada altura, num espetáculo construído apenas para as pessoas se divertirem e dançarem, começámos a colocar originais sem que ninguém percebesse. Em última análise, é mesmo esse o nosso objetivo, criar pseudoclássicos que tanto poderiam ser escritos hoje como há quatro décadas", reconhece João.

Uma "evolução natural" que levou à edição, em 2012, do primeiro álbum, You Are Somebody, um disco com metade de versões e metade de temas originais, que levou à natural emancipação da banda. "Começámos a direcionar-nos para outros lado e a regularidade no Musicbox passou a ser menor, mas de vez em quando ainda lá voltamos, para matar saudades", assume João Cabrita.

Uma banda para a diversão

E se esse disco de estreia serviu de apresentação, agora, quatro anos depois, o novo Soul, Sweat & Cut the Crap, todo ele composto por temas originais, é a prova do crescimento de uma banda que tem nos espetáculos o seu principal cartão-de-visita. "Este disco foi praticamente gravado ao vivo, exatamente porque queríamos manter esse lado mais cru e direto dos nossos espetáculos. Foi feito mesmo à antiga, porque a grande riqueza desta banda é a de ser composta por tanta gente talentosa", sustenta João, que mesmo assim reconhece ser por vezes difícil juntarem-se todos para ensaiar. "É terrível juntarmo-nos, porque cada um de nós tem os seus próprios projetos musicais. A maior parte das vezes nem sequer trabalhamos todos juntos. Às vezes ensaiam uns, noutros dias outros, mas vai funcionando, porque somos todos muito apaixonados por este género musical." E na hora da verdade, que é durante os espetáculos, estão todos juntos para dar o corpo e a alma por este projeto.

Até porque objetivo principal dos Cais do Sodré Funk Connection é, afinal, a diversão, deles próprios e do público que ao longo deste anos todos não tem deixado de encher os seus espetáculos. "O mais importante é divertirmo-nos, e quando isso acontece também o passamos para as pessoas. E quem vai a um concerto nosso vai para celebrar, dançar e passar um bom bocado. Tem de ser sempre uma festa", salienta João, que até já é reconhecido na rua como "o saxofonista dos Funk Connection": "Já toco há muitos anos, com gente muito mais conhecida, como o Sérgio Godinho, o Tigerman ou os Dead Combo e fico sempre impressionado, como já me aconteceu algumas vezes, quando sou abordado por alguém. É uma sensação maravilhosa, perceber que conseguimos chegar assim às pessoas." E nem as críticas, que os acusam de ser demasiado datados, os farão mudar de caminho. "Prefiro responder que somos, isso sim, intemporais. Pode até ser datado, mas isso é irrelevante quando as pessoas estão ali a suar tanto como nós."

Cais do Sodré Funk Connection

Soul, Sweat & Cut the Crap/Cais do Sodré Funk Connection

Titanic sur Mer, Lisboa, hoje, 23.00Bilhetes: 10 euro/12 euro

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