Adele a 360º em Lisboa

Em palco, a cantora foi diva, miúda e mãe. Hoje volta a subir ao palco do Meo Arena às 20.00

Talvez fosse quase inevitável que a primeira coisa a soar na voz de Adele ontem em Lisboa fosse Hello, It's Me. Afinal, foi com esse single que voltou, após um interregno de quatro anos, com o álbum 25.

Mais de 18 600 pessoas responderam-lhe cantando e ela, quase logo de seguida, boquiaberta, confessaria que "nunca tinha ouvido uma multidão [gritar] tão alto".

Ela, que avisou não ter canções alegres. Ela, portanto, que nos intervalos da melancolia ou desamor do que cantava gracejava, ria nos seus 28 anos, troçava de si própria, ria em gargalhadas sinceras, e contava episódios como aquele em que Bruce Springsteen lhe emprestou o casaco, quando o viu atuar na última quinta-feira no Rock in Rio Lisboa.

Adele - que mandou cumprimentos à mãe do Boss, com quem partilha o nome próprio - compensou quem a esperava há muito no seu primeiro concerto em Portugal, a que se segue o de hoje, às 20.00 no Meo Arena.

Não trouxe apenas temas do seu último disco, 25 (2015). Estiveram lá Hometown Glory, de 19 (2011), que a vimos cantar com imagens de Lisboa por detrás, ou, numa espécie de apogeu em três tempos, Chasing Pavements, Someone Like You, e Rolling in the Deep, que fechou o concerto de ontem, sábado, no Meo Arena, todos do álbum 21 (2011).

A cantora britânica contou que o seu filho de três anos a acordara às 5.00 da manhã, "por isso avisem-me se desmaiar". Falaria dele várias vezes ao longo do concerto, especialmente antes de cantar Sweetest Devotion. E explicou que, naqueles quatro anos em que quase não tivemos notícias dela, e em que não lhe conhecemos nenhum álbum, foi isso que esteve a fazer: a ser mãe. "Obrigada por me terem dito "Olá" quando eu disse "Hello"", afirmou, agradecendo o regresso.

E foi nesse regresso, depois da pausa da maternidade, que escreveu When We Were Young, a sua canção favorita entre o próprio reportório. Cantou-a, e enquanto o fez foram passando, atrás, no ecrã, as imagens de uma Adele a crescer, desde pequena, através dos anos. Antes, já a ouvíramos falar da sua adolescência, e dirigindo-se aos muitos adolescentes da sala, ao cantar Million Years Ago.

A voz, irrepreensível, intervalava uma série de fait divers que ficam na memória de quem assistiu ao concerto. Como Adele a cantar os parabéns a uma criança que fizera anos no dia anterior, ou Adele a posar para as várias câmaras e telemóveis que, nas primeiras filas lhe apontavam, o "merda, merda, merda" que pronunciou quando se enganou na letra, ou a forma como troçou de si mesma em All I Ask, dizendo que fica nervosa ao cantá-la, o que a faz suar, "e a minha cara está this fucking big", disse apontando para o ecrã gigante que tinha sobre si.

Da mesma forma que homenageou as vítimas dos atentados de março em Bruxelas num concerto em Londres, a certa altura a cantora pediu a todos que acendessem as lanternas dos seus telefones para, logo de seguida, cantar Make You Feel My Love (que muitos recordarão na voz de Bob Dylan), tema que dedicou às vítimas do acidente aéreo da EgyptAir, dizendo: "Sei que um deles era português, certo?"

Quase no final, em Set Fire to the Rain, cantou cercada por uma espécie de cortina de chuva. Mas era esse aparato, que de diversas formas foi aparecendo ao longo do concerto, que serve a voz e as canções de Adele. Nunca o contrário. Porque o espetáculo é ela, que canta como se não lhe custasse nada, como uma rapariga, agora mulher, absolutamente normal a quem deram aquela voz e uma história.

O espetáculo é ela e a sua voz, intervalada por todas as vezes em que troça de si própria, agradece ao público, lança piadas. O espetáculo é ela, que expurga os desgostos amorosos em canções que milhares de pessoas entoam à sua volta, ou lhes fala do seu filho. No final, lançou: "Melhor espetáculo de sempre!" Dirá sempre o mesmo? E que importará isso aos milhares que viam Adele pela primeira vez depois de, por certo, ouvirem repetidamente as mesmas canções?

Alinhamento do concerto de sábado:

Hello
Hometown Glory
One and Only
Rumour Has It
Water Under the Bridge
I Miss You
Skyfall
Million Years Ago
Don"t You Remember
Send My Love (to Your New Lover)
Make You Feel My Love
Sweetest Devotion
Chasing Pavements
Someone Like You
Set Fire to the Rain
All I Ask
When We Were Young
Rolling in the Deep

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