A visita do designer Jasper Morrison ao Museu de Etnologia

O artista esteve, de forma anónima, no museu de Lisboa. O resultado será conhecido na segunda-feira.

Uma exposição. Um livro. Outra exposição. A visita anónima do designer britânico Jasper Morrison ao Museu Nacional de Etnologia (MNE), em Lisboa, há três anos, resultou num conjunto de fotografias de objetos da vida rural portuguesa que foram reunidas em The Hard Life, editado pela Lars Müller Publishers, e numa exposição destas imagens que é inaugurada hoje, em Londres. Resultará, também, numa exposição na instituição portuguesa que fará a síntese.

Fotos e objetos reencontram-se até ao final deste ano, estima o diretor do museu, Paulo Costa. É ele, o diretor do MNE, quem abre as portas das reservas do Museu Nacional de Etnologia ao DN, mostrando os caminhos percorridos por Jasper Morrison quando aqui esteve em 2013. A esse primeiro contacto seguiu-se um pedido formal para fotografar as peças, ao anterior diretor, Joaquim Pais de Brito, explicando o projeto editorial que tinha em mente (em oposição clara ao seu anterior livro, The Good Life) e que, quase três anos depois, vê a luz no Shoreditch Design Triangle, no âmbito da programação do London Design Festival. Algumas imagens têm sido publicadas no Instagram do artista, como os sapatos de pescador do Sado ou o banco feito com o que sobrava das rodas dos carros de bois (ao lado). Foi neste corredor comprido, a média luz, que foi montado o estúdio branco onde Jasper Morrison fotografou cerca de 200 peças. Nem todas chegaram ao livro escrito "em colaboração com o Museu Nacional de Etnologia", como aparece na segunda página.

Todas as peças têm um denominador comum. Representam "a vida quotidiana, a vida agrícola, doméstica". Há de tudo. Objetos da coleção de 40 mil peças identificadas a partir dos anos 1940 pelos antropólogos fundadores do museu, Jorge Dias, Benjamim Pereira, Fernando Galhano e Ernesto Veiga de Oliveira, e recolhida a partir dos anos 1960, bem como alguns dos 12 mil itens vindos do Museu de Arte Popular, que ali chegaram em 2007.

Nas galerias da vida rural, cuja museografia se mantém como foi projetada por Benjamim Pereira, convivem "a apresentação técnica e a cénica", como diz Paulo Costa. Serve o etnólogo, historiador ou estudioso, como serve quem visita o museu. Estes pisos, pela sua localização, dois níveis abaixo do chão numa antiga pedreira, só podem ser visitados por marcação e estão agora abertos de quarta a domingo (das 10.00 às 18.00).

Cada objeto, ou tipologia, escolhido por Morrison é acompanhado de uma legenda que revela as razões por que foi escolhida pelo autor. E, como diz Paulo Costa, "a escolha é dele".

Veja-se o caso de duas taças oriundas do centro do país, com uma saliência ao centro, que eram usadas para servir a comida (quando toda a gente comia do mesmo recipiente), cortando alguns alimentos ao centro. "A surpresa é que uma ideia tão boa não tenha ido mais longe. Agora, sempre que corto vegetais penso como seria melhor ter uma destas do que tentar manter tudo dentro de uma tábua", escreve. "Foi ideia de uma só pessoa que se espalhou localmente num curto período de tempo ou uma tradição?", pergunta-se. "Nunca saberemos, mas na minha cabeça representam o que o design devia ser, pensamento prático que resulta em algo excecionalmente útil, desempenhando um papel vital para tornar a vida de todos os dias mais rica e bela", responde.

Na contracapa da obra, à venda na Amazon a 25 de outubro, Morrison, conhecido pelo seu contributo para o design industrial, oferece mais explicações sobre o que motivou: "Através de que meios chegou tanta beleza e engenho a artigos da vida rural em Portugal? Como é que a forma destes objetos equilibra a necessidade e a perfeição formal tão habilidosamente?"

Entre as peças existem exemplares de cortiça, um material que une Jasper Morrison a Portugal há pelo menos meia década. O designer foi um dos nomes convidados pela associação Experimenta Design (EXD) para criar objetos novos a partir da cortiça, ao lado dos arquitetos Siza Vieira, Souto de Moura, Carrilho da Graça e Amanda Levete (autora do novo museu da Fundação EDP). O resultado foi visto em 2013, por ocasião da EXD, no Mosteiro dos Jerónimos. Morrison criou uma parede de mosaicos de cortiça, a partir dos azulejos portugueses e tirando partido das suas qualidades como isolante acústico. Em The Hard Life mostra típicos cochos ou cocharros de pastor. "Que tenham sobrevivido é um tributo às fantásticas propriedades da cortiça, flexível o suficiente para sobreviver a uma queda, rígida o suficiente para servir o seu propósito, à prova de inseto, bolor, e amável ao toque", escreve no pequeno texto do livro. As que fotografou foram recolhidas no Alentejo.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG