A vida, o amor e a morte por Laurie Anderson

A morte da cadela Lolabelle é o ponto de partida para uma viagem pela morte e pelos limites da linguagem

Importante precursora do panorama artístico nova-iorquino, desde os anos 1970-80, sobretudo na performance musical, Laurie Anderson não trazia novidades ao cinema desde 1986, quando realizou o filme-concerto Home of the Brave. Passados 30 anos, o regresso fica marcado por este belíssimo ensaio de memória e reflexão que transpõe as fronteiras do íntimo e do social, mostrando a profunda ligação do mundo através da arte.

A boa energia está na voz, e Laurie Anderson tem-na de sobra. Entenda-se: tanto a boa energia como a voz. Um timbre algo lírico e ao mesmo tempo sedutor, que se distingue como ferramenta vital de uma veterana contadora de histórias. A oportunidade de a ver e ouvir foi um dos pontos altos do Lisbon & Estoril Film Festival, no passado mês de novembro, mas igualmente fundamental é conhecer o novo filme. O timbre, lá está, da artista norte-americana é o seu modo de acolhimento na voz off de Coração de Cão, concedendo como que uma arquitetura sólida à experiência que está por vir: uma mistura de fragmentos de vida, impressões, pensamentos. Tudo isto transformado pelo poder da palavra dita.

Um sonho macabro

Ainda neste ano, no filme de Jean--Luc Godard Adeus à Linguagem, descobríamos em Roxy, o cão do realizador, um protagonista despretensioso. Em Coração de Cão, por outro lado, é inequivocamente da história afetiva de Lolabelle que partimos: o falecido rat terrier de Laurie, que esta - di-lo mesmo - amou tanto como se tivesse saído de dentro de si. Ela fala-nos de um sonho, digamos, carinhosamente macabro, em que Lolabelle teria sido colocada no interior do seu ventre para que a desse à luz, numa cesariana. O sonho de que falamos é o prólogo do filme, exposto através de ilustrações com o traço da própria Laurie Anderson - uma dimensão plástica que favorece a metáfora.

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