A vida inesgotável das marionetas do Porto

Há 30 anos, João Paulo Seara Cardoso deu início à aventura, com a criação do Teatro de Marionetas do Porto, hoje bem vivo. Para a festa há 12 reposições de peças, um livro comemorativo e um museu que homenageia o fundador.

A herança deixada por João Paulo Seara Cardoso (1956-2010) é inesgotável no Teatro de Marionetas do Porto (TMP). A comemorar os 30 anos em 2018, a companhia fundada pelo ator, encenador, cenógrafo, escritor e professor espera ter "um ano em cheio, muito intenso", com a reposição de 12 espetáculos, um por mês, levadas a cena no seu Teatro do Belomonte e em diversos outros palcos nacionais e estrangeiros ao longo dos últimos anos. Fausto, estreada em 2015, será a primeira, já no próximo dia 25. A estreia prevista será especial. A peça "Quem sou eu?" contará com a participação de pessoas com mais 65 anos, não profissionais, fruto do trabalho do pólo que a companhia abriu na zona de Campanhã.

Falar da história do TMP é iniciar uma viagem no tempo em que João Paulo Seara Cardoso é personagem principal. Em setembro de 1988 fundou uma companhia de teatro de marionetas, no Porto, com a energia, criatividade e intransigência que ainda hoje perduram. Com base em textos mais tradicionais, as primeiras peças como Dom Roberto cativaram o público e a crítica. Em 1993, a peça Vai no Batalha, com as marionetas a recriarem uma revista à portuguesa, conheceu um enorme sucesso, com sessões ao longo de um ano. Foi nesse ano que Isabel Barros chegou às marionetas.

"Foi quando comecei a namorar com o João Paulo, no ano do Vai no Batalha. Fiz a parte das marionetas. Foram muitas sessões, a sala funcionava em contínuo. Vinha do Ballet Teatro [escola profissional que hoje dirige] e entrei assim no mundo das marionetas", recordou ao DN a coreógrafa e atual diretora do TMP.

A atitude visionária foi consolidada com os espetáculos. "Naquela altura, as marionetas eram novidade. Em 1989 nasceu o Festival Internacional de Marionetas do Porto e vieram companhias de referência internacionais", lembra Isabel Barros, convencida que esse impulso que nasceu no Porto contribuiu decisivamente para a implantação das marionetas no país. "Hoje há muitas companhias em vários pontos do país. Muitas nasceram com pessoas que se formaram aqui. Há festivais em Lisboa e Porto e não é vulgar num país tão pequeno haver dois museus, o nosso e o de Lisboa dedicados às marionetas", aponta.

O sucesso na década de 1990 foi antecedido pelo trabalho de João Paulo a dirigir séries infantis na RTP, como A Árvore dos Patafúrdios, Os Amigos do Gaspar, Mópi" e No Tempo dos Afonsinhos. Nos anos seguintes já Isabel colaborava com João Paulo em peças como Terceira Estação, onde dança e marionetas se cruzavam no palco.

O TMP funciona com uma equipa fixa de dez pessoas, dos 21 aos 52 anos, alguns como Isabel com mais de 20 anos na casa, outros mais recentes. É o caso de Rui Queiroz de Matos, ator e encenador, que alinhou a sério no teatro de marionetas em 2009. "Sou ator e as marionetas chegaram quando fui aluno do João Paulo. Não gostava e hoje admito que estava enganado. Considerava ser mesmo uma coisa menor. Acabei por ficar rendido", diz um dos atores da peça Fausto.

Transmissão de conhecimento

Isabel Barros reconhece que "as pessoas ficam muito tempo na companhia", sem que isso impeça uma constante renovação. "Há sempre gente nova, em estágios. É importante a transmissão, não há escolas de marionetas e a aprendizagem faz-se muito no teatro."

Quando Rui Queiroz de Matos diz que é ator refere-se também ao trabalho de representação desenvolvido nas marionetas. "Sinto-me um ator que é marionetista." Nas peças do TEP, o ator ou marionetista participa na peça, é uma presença à vista do espetador . "Há peças que podem ter só 50% de marionetas. O trabalho do ator tem de ser consistente para viver os momentos em que usa a marioneta", explica. Desde as primeiras peças de João Paulo Seara Cardoso, o ator está sempre à vista. "É raríssimo haver uma peça com atores escondidos."

Desenvolve-se uma técnica entre ator e marioneta que permite uma representação em que "tudo flui melhor". E o que acrescenta a marioneta? "Faz o que o ator não é capaz de fazer. Por exemplo, voar. Muitas vezes é uma personagem tão fora do mundo real que o torna fantástico". É esta forma de expressão que acabou por convencer o jovem ator e encenador. "Há muita liberdade, tanto se foge ao real como vive de textos mais realistas." É o caso de Fausto, que a partir de um original de Christopher Marlowe, encenado por Roberto Merino, chileno há muitos anos radicado no Porto, apresenta "um texto muito denso, em que a interpretação pelo ator tem de estar lá, no palco."

Rui é uma das pessoas que garante a continuidade do TMP, com a atitude "exigida" por João Paulo Sera Cardoso a manter-se. "Ele foi o único encenador durante muitos anos. O Rui depois começou também a encenar e isso é parte do espírito da companhia. A inquietação do João Paulo com o trabalho, permanente na companhia, está viva. As mudanças são orgânicas e há uma jovialidade na equipa", realça Isabel Barros.

No TEP, na Rua do Belomonte, em pleno centro histórico do Porto, a sede desde a primeira hora, todo o processo está alinhado. Há a sala de espetáculos, com lotação para 46 pessoas, a oficina e o armazém, desde 2016 transformado no espaço do Museu de Marionetas do Porto, uma ideia de João Paulo Seara Cardoso só concretizada em 2013 na Rua das Flores, de onde tiveram de sair quando o edifício foi vendido. "Tínhamos mais visitantes lá, como é uma rua pedonal, muito turística. Mas o museu mantém a sua identidade, que é de autor, do João Paulo. Mas perdemos visitantes, é certo, com a mudança", constata a diretora.

O Fausto, o Barba Azul ou outras marionetas, nascem ali, no teatro, e depois podem viver no museu. "Fabricamos tudo cá. A equipa é que produz as marionetas, por vezes com outros artistas associados, mas o processo é sempre feito cá", diz Isabel. Depois dos palcos, estas peças repousam no museu, sempre aptas a regressar ao palco.

Um museu dinâmico

O espólio cresce ao longo dos anos e vai sendo renovada a sua exposição. "Será sempre dinâmico por isso." Ali se encontram marionetas, objetos, cartazes, vídeos, peças de cenografia. É inclusivo, também há vídeo com linguagem gestual. Os visitantes estrangeiros são a maioria (em 2106 foram mais de 17 mil no total), mas também há as escolas. Tivemos um americano, que fazia trabalho com marionetas, que passou a semana aqui. Ficou espantado por haver aqui um museu deste género", diz Rui Queiroz de Matos.

O TEP divide-se entre o teatro par crianças e as peças que se dirigem a um público adulto. "Às vezes muito adulto", graceja Isabel, que recorda as lutas de João Paulo Seara Cardoso contra a ideia que as marionetas eram uma coisa só para crianças. "Fez um combate ativo a isso." O primeiro contacto é no contexto da creche mas o público cresce e o teatro acompanha. "A ideia está hoje aceite", admite Rui.

Como se trata de um ano com um aniversário especial, a programação é também diferente. São portanto doze reposições, seja no Teatro do Belomonte ou noutros locais do Porto e Matosinhos: Kitsune (23 de fevereiro), Óscar (7 de março), Arcano (6 de abril), Como um Carrossel (11 de maio), Barba Azul (6 de junho), Pelos Cabelos (1 de julho), Os 3 Porquinhos (17 de agosto), Wonderland (21 de setembro), frágil (10 de Outubro), Nunca (17 de novembro) e Cinderela (13 de dezembro). Haverá ainda Bichos do Bosque (21 de março, dia mundial da marioneta) e a única estreia do ano, Quem Sou Eu? em 20 e 21 de outubro, Teatro Campo Alegre, inserido na programação do FIMP"18

"É especial. Vamos trabalhar com pessoas com mais de 65 anos, de instituições de Campanhã, onde temos um pólo na Quinta da Bonjóia. Será escrita com essas pessoas, elas vão colaborar nas marionetas e na manipulação", explica Isabel.

Este projeto de inclusão social insere-se perfeitamente numa companhia que busca a experimentação. "Sempre foi uma direção do João Paulo, no início rompemos com tudo o que se fazia. Hoje há tecnologia do vídeo e o cruzamento de várias técnicas de manipulação", afirma Isabel, com Rui a exemplificar que "hoje não se aqui o fio, é quase tudo com varas."

Com o apoio da Direção Geral das Artes e de uma Câmara do Porto que "assume a cultura como eixo principal, a valoriza e a acarinha", o TEP perdeu mais de metade do orçamento nos últimos anos. "Temos as nossas receitas mas quando estreamos o Fausto foi através de uma campanha de crowdfunding", alerta a diretora do TEP, com Rui Queiroz de Matos a reconhecer que também foi o momento "em que houve uma entrega grande ao trabalho."

Livro e itinerância

Para que os 30 anos do TEP fiquem mesmo registados está ainda previsto o lançamento de um livro, a 4 de fevereiro. As Marionetas Não Morrem é uma obra que pretende ficar como "um documento sobre a vida do teatro de marionetas do Porto, desde a abertura à criação do museu, com fotografias e uma entrevista a João Paulo Seara Cardoso", diz Isabel Barros.

Ali fica bem retratado a busca do tradicional para o enquadrar no teatro mais contemporâneo. Este cruzamento salta das próprias peças para a itinerância que hoje o TEP aposta. "Levar os espetáculos a outros espaços do Porto ou Matosinhos, e outras cidades, é importante. Ir até novos públicos."

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