A vibrante instalação do medo de Aronovsky

Chama-se "Mãe!" e já é um dos mais mais incompreendidos filmes americanos dos últimos anos. Uma fábula de horror que muda a nossa maneira de ter medo no cinema.

Não está a ser fácil a vida para a Paramount no que diz respeito à promoção do novo de Aronovsky. O filme sai dos festivais de Veneza e de Toronto de mãos à abanar nos palmarés e recebe pontuação baixíssima nos questionários para o público a seguir às sessões de estreia.

Mother! afundou-se nas bilheteiras e o excelente marketing criativo não consegue "vender" esta obra de terror psicológico. A lógica de que este não é um filme "fácil" parece simplista, para não dizer redutor. Mãe! não tem tiques à Stranger Things, efeitos digitais com super-heróis nem clichés de sustos da moda, mas é, isso sim, um convite ousado ao espectador para entrar numa aventura de "experiência" sensorial e onírica. Pode não ser cómodo para o espectador, mas também Rosemary's Baby - A Semente do Diabo (1968), de Roman Polanski (e esta é realmente a grande referência temática de Aronovsky, quase que não se pode tirar a sombra de Polanski lá de dentro) era tudo menos cómodo. Sinal dos tempos...

O argumento (supostamente escrito de forma galopante em menos de uma semana) fala de política sexual, de fobias da sociedade moderna, de fundamentalismo religioso, dos novos media, do ego dos artista e, sobretudo, da própria consciência do realizador. Quanto menos se contar, melhor. Apenas é boa ideia dizer que se passa inteiramente numa mansão americana onde um poeta e a sua bela mulher bem mais jovem vivem. Estão numa relação aparentemente perfeita, mas ele é confrontado pelo bloqueio do escritor.

Uma premissa de sinopse que estranha e não se entranha e isso é decisivo para o espectador ficar deliciosamente perdido. Há aqui uma marca de desorientação que tem quase um efeito envolvente. À medida que o tapete nos é tirado o filme nunca perde o seu poder intrigante, como se fosse um elemento cinematográfico fresco.

E se na América há quem grite bem alto que não se percebe o desenrolar da história, a própria mecânica do filme não pede explicações explícitas. Cada um de nós gere a insanidade das metáforas e simbolismos bíblicos. A própria sugestão de género de terror (com uma alavancagem grande do sub género do home invasion e do gore apocalítico") não é determinismo de fancaria.

Trata-se sim de Aronovsky a brincar com as expectativas, neste caso uma violência que não tem medo de ser verdadeiramente sádica e perturbadora. Temos sangue, muito sangue, ruídos desestabilizadores e poses de lavagem emocional: Jennifer Lawrence e a sua gravidez, Javier Bardem de sorriso satânico e de coração nas mãos enquanto a câmara movimentada de forma ofegante a mão irrompe pelas chamas. O cinema de terror como forma de ilusão metafisica. E nesta colagem de metáforas de loucura sobra ainda um esmiuçar de um humor muito negro. No Festival de Toronto, Aronovsky assumiu que esta extravagância pode fazer rir. Uma comédia demente e herege, afinal.

Claro que vai e já está a ser amado e odiado. Este é o Darren Aronovsky de Cisne Negro e de Requiem para um Sonho e não o Aronovsky equivocado de O Último Capítulo. Mãe! só não é a sua obra-prima porque um dia fez um drama clássico genial chamado O Wrestler.

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