"A Rússia está a tentar falsificar a história"

A escritora Sofi Oksanen pretende recuperar o papel da mulher na história da Estónia porque os historiadores não o fazem. Quanto ao legado da União Soviética o seu desagrado é grande.

Sofi Oksanen nasce na Finlândia em 1977, filha de um eletricista desse país e de uma engenheira estoniana que viveu a ocupação soviética. Uma combinação perfeita para gerar na escritora e dramaturga a necessidade de conhecer o passado de ambos e escrever vários livros sobre a história dos dois países, em muito sob o olhar da exploração feminina.

O que faz num conjunto de romances que já lhe valeram o Prémio Nórdico da Academia Sueca pelo conjunto da obra, tendo o seu romance mais premiado, A Purga, entre vários o Prémio Femina, feito um retrato da exploração sexual de mulheres da Estónia em diferentes épocas, como a que se verificou durante a dominação soviética e, posteriormente, enquanto legado do fim desse império. "São lados diferentes da exploração sexual, mas as consequências psicológicas são as mesmas apesar da diferença de época", considera. Acrescenta que essas memórias resultam "de uma recordação muito seletiva, mas mesmo assim interessante para os leitores de gerações mais novas que desconhecem a vida das avós e questionam porque estas não lhes contaram partes das suas vidas".

A Purga trata do tráfico sexual e nasce como texto para uma peça teatral que, devido ao sucesso mundial - foi representada em Portugal -, obrigou a autora a recuperar muita da temática investigada na escrita de um romance com o mesmo título: "Uma peça tem duas horas e o número de páginas de texto é curto. Havia muito material que deixara de fora e decidi escrever um livro para dar mais informação, pois o teatro só permite um lado da experiência e não pode fugir a fixar apenas uma parte do todo. O romance tem uma expressão mais eficiente pois pode-se trabalhar os pormenores e fica mais parecido com um corpo inteiro do que o esqueleto possível na dramaturgia."

Este romance tornou-se um sucesso na Finlândia e na Estónia por razões diferentes. Para Sofi Oksanen, existe uma grande diferença na forma de olhar para o passado nos dois países: "Para os estónios a história faz parte do seu dia-a-dia e, felizmente, do das novas gerações de investigadores. Há muita informação nova a chegar através dos historiadores, bem como com a publicação de muitas memórias e biografias de pessoas deportadas, no entanto a história é ignorada na literatura da Estónia e um tema quase ignorado. Os escritores não se preocupam muito com a temática por ser recente e difícil de ficcionar. Quanto aos finlandeses, falar do passado é uma situação muito complicada porque, de muitas maneiras, ainda existe um discurso pró-Finlândia." Em resumo, explica a autora, "com a independência da Estónia muita gente começou a investigar o passado, mas na Finlândia ninguém se quer libertar do passado ou mesmo falar sobre certos assuntos dessa época".

Outra das razões para o debate sobre o passado da ocupação soviética não se verificar, diz a autora, tem que ver com a atual situação política da Rússia: "O apoio a Putin parece grande porque não existem outras opções no país nem uma janela para o mundo desde há anos. A televisão é só propaganda e, por exemplo, quando refere a Europa é para a mostrar como uma coisa má e onde só existem catástrofes. Ninguém se apercebe de como a vida pode ser diferente porque Putin não quer a Rússia mais aberta ou com outras opções de futuro." Por isso quando se lhe pergunta se A Purga tenta contrariar a falsificação futura da história, Oksanen responde: "Sim, a Rússia está a tentar falsificar a história dos Estados à volta com propaganda muito forte e tem muita gente ocupada a criar uma narrativa histórica que não corresponde ao nosso passado. Ainda temos de lutar muito para escrever sobre a nossa própria história e esclarecer o mundo."

Sofi Oksanen faz questão de definir que entre as piores heranças da União Soviética não está apenas o crescimento gigantesco do tráfico sexual: "Há outros desastres nacionais, até preferia dizer que o comunismo foi o grande desastre para o mundo - tanto na Rússia como na China." Entre os seus leitores estão muitos jovens, que Oksanen diz olharem para o tráfico sexual como resultado da diferença da economia entre o Oriente e Ocidente: "Se não houver muitas oportunidades de trabalho, não sei o que lhes acontece além de serem vítimas."

Quanto à importância de um livro como A Purga quando comparado com uma visualização mais viva num filme sobre as questões de tráfico sexual e o sofrimento causado pelas redes, Sofi Oksanen refere que "as audiências são muito diferentes, no entanto muita gente recusa-se a ver violência no ecrã do cinema e prefere ler um livro com o mesmo tema". Garante que tentou suavizar a escrita e que faz questão "de escrever com musicalidade porque é importante para compreender este tema".

Quando se questiona Oksanen sobre se este romance pretende também recuperar o papel da mulher nos tempos da ocupação soviética, a escritora concorda: "De uma certa maneira sim, porque os historiadores estão muito mais focados nos conflitos militares e não no que aconteceu na retaguarda, onde as mulheres e as crianças tinham um papel muito importante nos conflitos." Um panorama que exigiu à autora muita investigação apesar das suas raízes estonianas: "Tive de procurar muito mesmo porque confiar na memória é uma coisa muito perigosa e a história na Estónia tem sido muito transmitida pela tradição oral."

A tradução de A Purga para a língua portuguesa foi "uma boa surpresa" para Sofi Oksanen, tal como de mais dois romances: Norma e Quando as Pombas Desaparecem. O primeiro relata o drama familiar de uma protagonista com poderes sobrenaturais e o segundo conta a deserção em 1941 de dois soldados do Exército Vermelho na Estónia. Este último, diz, foi para suprir a ausência de depoimentos pessoais polémicos: "Não há muita gente do KGB disponível para contar a sua vida." Em falta estão outros romances, o inicial, As Vacas de Estaline, e o segundo, Baby Jane, nada que espante Sofi Oksanen: "Os autores finlandeses raramente são traduzidos!"

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