A rainha do Carnaval está de volta aos coliseus

Maria Bethânia continua a celebrar os mais de 50 anos de carreira com um concerto de Grandes Sucessos. Mas já tem os olhos no próximo disco, que quer lançar no final de 2018.

No carnaval carioca do ano passado, a escola de samba da Mangueira foi a grande vencedora do desfile com uma homenagem à cantora Maria Bethânia, que tinha acabado de celebrar os 50 anos de carreira. No samba-enredo, intitulado A Menina dos Olhos de Oyá, recordava-se a sua estreia no Teatro Opinião, a dedicação a Nossa Senhora e a sua ligação ao candomblé. "Sou abelha rainha, fera ferida, bordadeira da canção/ De pé descalço, puxo o verso e abro a roda", cantou a escola que desfilou no sambódromo, com a própria Maria Bethânia em cima de um carro alegórico, os longos cabelos soltos, a sambar devagarinho, porque é assim que ela é. "Foi maravilhoso, toda a experiência foi apaixonante", recorda a cantora, mais de um ano depois, numa conversa telefónica com o DN. "É inacreditável aquilo ali. Só ser homenageada pela Mangueira é muita coisa; ser campeã, então, é bom demais."

Foi tão bom que Maria Bethânia incluiu o samba-enredo no seu repertório. Cantado à sua maneira, ele faz parte do espetáculo que tem vindo a apresentar no Brasil e que agora traz a Portugal e no qual interpreta Grandes Sucessos. À primeira vista, pode parecer que este show será muito parecido àquele com que a cantora celebrou os 50 anos de carreira e que também passou por Portugal há dois anos. E haverá, obviamente, temas que se repetem por serem incontornáveis. Mas Bethânia garante que são espetáculos diferentes: "Fui escolhendo pontos que eram significativos para mim, de cada show, desde o primeiro até ao dos 50 anos. Esse repertório é escolhido não só por ser um sucesso", explica. Existe uma dramaturgia que dá sentido a este conjunto de canções, e que é a sua relação com o presente: "Recorri aos meus pensamentos e comentários atuais, o que eu penso hoje sobre o amor, sobre a política, sobre o meu país." Comentários em forma de canção, claro, pois o seu estilo é mais subtil do que abertamente interventivo. "É óbvio que como eu sou uma cantora de muitas baladas, então, este espetáculo tem uma base de canções de amor. Mas não tem só isso", explica Maria Bethânia.

???????A cantora costuma dizer que este é um "show de rua" porque começou assim mesmo, numa apresentação ao ar livre na sua cidade natal, Santo Amaro. "Aqui no Brasil eu sou uma cantora meio sofisticada, canto em lugares mais nobres. Mas também sou convidada para fazer shows de rua que são geralmente de entrada gratuita, e são maravilhosos, muito livres, é um show de dia e é diferente daquela concentração que o teatro exige. Eu gosto das duas coisas. Este show é um show de rua porque as pessoas vivem o show dessa maneira, cantam o show inteiro, podem dançar. O show tem essa intimidade, esse ritmo. Mas depois também resulta muito bem numa sala de concerto. Não muda nada."

Descalça, como está sempre em palco, é muito provável que, tal como tem feito no Brasil, Bethânia cante sucessos como Negue (de Adelino Moreira e Enzo Almeida), Fera Ferida (de Roberto Carlos e Erasmo Carlos), Cálice (de Gilberto Gil e Chico Buarque), É o Amor (Zezé Di Camargo), Olhos nos Olhos (Chico Buarque), Começaria Tudo Outra Vez e Explode Coração (ambas de Gonzaguinha), e ainda um medley de sambas de roda, Reconvexo (Caetano Veloso).

Mas na lista de canções também se têm encontrado outros temas, que estão longe de serem hits, como Dona de raio e do vento (de Paulo César Pinheiro, 2006), Lágrima (Roque Ferreira, 2006) ou até Balada de Gisberta (do português Pedro Abrunhosa, 2007). E também faz algumas homenagens "a amigos e mestres, uns vivos, outros mortos" - por exemplo, ao poeta Vinicius de Moraes e ao compositor Naná Vasconcelos. Nos coliseus, irá garantidamente falar um pouco da sua relação com Portugal: "Se eu vou falar das minhas grandes paixões em Portugal, eu vou passar metade do espetáculo reverenciando", ri-se. " Então, eu vou só dizer um texto, ainda não escrevi mas tenho o todo na minha cabeça. E digo um pequenino texto do Fernando [Pessoa]."

Aos 71 anos, Bethânia confessa que apesar de ter passado os últimos tempos a celebrar os mais de 50 anos de carreira, o que gosta mesmo "é de olhar para frente": "Sou uma pessoa que gosto de imaginar. Gosto de andar, de saber o que é que está me mexendo, qual é o meu sentimento sobre isto e sobre aquilo. Neste momento eu estou fazendo este show, mas já estou recolhendo repertório para o próximo disco", revela. Ainda não sabe o que irá ser esse disco, que há de aparecer no final do próximo ano, mas ele vai refletir o que Maria Bethânia sente ao olhar para o mundo: "Eu olho para a frente com muito susto. Eu acho que a humanidade está correndo muito, está muito ansiosa, não sei aonde é que quer chegar. Há muito tempo que não vejo novidades boas, de avanços, pelo contrário, vejo muito retrocesso, inclusive no meu país."

Maria Bethânia - Grandes sucessos
Coliseu de Lisboa, hoje e amanhã
Bilhetes: 25 euros - 90 euros
Coliseu do Porto, dia 25
Bilhetes: 25 euros - 80 euros

Exclusivos