A quinta dos portugueses na noite negra do Primavera

Samuel Úria e Rodrigo Leao, acompanhado de Scott Matthew, foram os destaques no arranque do primeiro dia de festival.

É sabido que Samuel Úria é desde há muito um dos mais talentosos autores da música portuguesa, nem sempre tal é sinónimo da consistência que o músico português ontem ao início da tarde apresentou no concerto de abertura do NOS Primavera Sound, no Porto. E se o último álbum, Carga de Ombro, já havia provado toda a maturidade artística e musical do "Bob Dylan português", como alguém o apelidou à chegada ao concerto, o modo como encarou um espetáculo que, habitualmente, apenas serve para fazer tempo, só o veio provar mais uma vez.

Não demorou muito, aliás, para conseguir agarrar o público, ao pedir para o acompanharem na versão de Molly"s Lips, um original dos escoceses Vaselines, popularizado pelos Nirvana, que Úria transformou em "os lábios de Amália". Tal como aconteceu com Carga de Ombro ou com Teimoso, o tema do álbum Nem lhe Tocava, de 2009, com que encerrou, "armado em José Cid", a pedir para todos cantarem com ele.

E todos o fizeram: "Eu nunca fui do prog rock, eu já nasci depois do PREC" - tal como a maioria dos presentes. "Belo público", desabafou no final. "Ainda posso tocar mais uma?" Não, era a última, mas vale a pena.

No palco principal já começavam entretanto os norte-americanos Cigarettes After Sex, que sofreram da horário vespertino e da imensidão do palco principal, pouco adequado ao lânguido dream pop da banda. "Esta é uma música sobre embebedarmo-nos e relaxarmos", anunciou a dada altura o vocalista Greg Gonzales, que era exatamente o que toda a gente fazia por essa altura no Parque da Cidade. Mesmo assim, registe-se a enorme multidão, quase toda deitada na relva, naquela que terá sido uma das maiores enchentes ao fim da tarde do primeiro dia, em toda a história do festival, que chega este ano à sua sexta edição.

No palco Super Bock chegou depois a vez do português Rodrigo Leão e do australiano Scott Matthew mostrarem o álbum conjunto Life Is Long, editado em 2016. Os riscos eram elevados, pelas mesmas razões da atuação anterior, mas a dupla, e o ensamble que os acompanhava, passou o teste com distinção e com algum humor à mistura. "Vocês devem estar a pensar quem é este tipo esquisito com o Rodrigo", brincou Scott Matthew, antes de arrancar com uma surpreendente versão de I Wanna Dance With Somebody, de Whitney Houston. O final, como se esperava, foi ao som do single Life Is Long.

Nova migração de palco, desta vez em direção ao palco principal, começava a atuar Miguel. À exceção de alguns fãs mais conhecedores, nas filas da frente, as expectativas pareciam não ser não as maiores, mas depressa o californiano fez saber porque em tempos foi apelidado de "o novo Prince". O R&B da velha escola, o funk desenfreado e os solos do guitarrista, esses sim a fazer lembrar tanto o pequeno génio de Minneapolis, depressa conseguiram o que ninguém antes fizera: colocar a multidão a dançar. E, por momentos, até o sol voltou a aparecer. Sim está era uma noite negra, não da cor das roupas dos Cigarettes After Sex, mas da música negra: de Miguel, mas também de Flying Lotus e dos Run The Jewels.

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