A paixão, ou paixões, de Angel Olsen

Os álbuns de Led Zepplin, Angel Olsen, Warpaint e You Can Win, Charlie Brown vistos por Gonçalo Palma

Em Chama

Foi sobretudo ao segundo álbum, Burn Your Fire for No Witness (de 2014), que Angel Olsen mostrou o que valia, numa intermitência impressionante entre a folk acabrunhada e tocante e a chama elétrica que despertava qualquer alma adormecida. Poderia escrever-se que Angel Olsen deu tudo o que tinha nesse disco, mas a cantora norte-americana é mesmo assim em qualquer coisa que faz. Empenha-se em cada canção como se a sua vida dependesse desse tema. É com essa entrega que grava este terceiro longo, My Woman.

Angel Olsen canta em todo o disco sobre a sua paixão - ou paixões, hipótese em aberto que a subjetividade das canções permite. My Woman divide-se em duas metades diferentes, a primeira mais rasgadinha e suada, a segunda mais pausada e serena. Nas primeiras cinco faixas de My Woman, Angel Olsen canta com a alma de uma Shannon Wright mas com uma banda de parecenças com os Throwing Muses, sempre pronta para todos os abanões sentimentais. Angel Olsen quase que canta Intern com os lábios juntos ao nosso ouvido, como se nós fossemos o amante daquela canção. As camadas de sintetizadores são o elemento decorativo deste confronto intimista.

A música indie-rocker à la Cat Power Never Be Mine tem uma genica otimista que a letra, conformista com a sua derrota amorosa, não tem. Shut Up Kiss Me e Give It Up de conformistas não têm nada. São dois puxões ao seu apaixonado, com um dramatismo glorioso ao jeito de Anna Calvi dos tempos do álbum de estreia homónimo. Em Not Gonna Kill You, Angel Olsen mantém o fôlego elevado e persuade a banda a seguir-lhe os impulsos emotivos.

Na metade mais intimista de My Woman, perfuma-se o ar com o country-rock para luzes de velas de Heart Shaped Face e de Sister (com direito a desbunda instrumental). Quem por acidente começar a ouvir o disco nestas faixas 6 e 7, convencer-se-á de que está a consumir um disco dos Mazzy Star. E a cantora até se mascara vocalmente de Hopy Sandoval com aquele estilo felino fofinho. O sussurrado Those Were The Days consegue baixar ainda mais as poucas luzes. E a canção final Pops fecha-as mesmo, ao piano, com uma última frase elucidativa: "I"ll be the thing that lives in the dream when it"s gone".

Ficha do disco:

My Woman, de Angel Olsen

Jagjagwar

PVP: 14,15 euros

**** muito bom

Pelo mato blues-rocker adentro

O CD triplo The Complete BBC Sessions capta de forma crua e sem filtros os Led Zeppelin no seu pico de forma entre 1969 e 1971, em sessões de gravações para programas de reputados radialistas, incluindo o benemérito do arrojo rock, o divulgador John Peel.

Estas seis sessões diferentes, incluindo a atuação ao vivo no Paris Cinema, em Londres, conferem uma experiência sensorial intensa do ADN do grupo inglês, que era um cocktail explosivo como se o guitarrista Jimi Hendrix tocasse na mesma banda da cantora Janis Joplin... Jimmy Page fazia de Hendrix e Robert Plant de Joplin.

Mas claro que os Led Zeppelin eram mais do que isso. Eles foram a dream-team do rock & roll: Robert Plant era um dos melhores vocalistas do mundo, senão o melhor; Jimmy Page era um dos melhores guitarristas, se não o melhor; John Paul Jones era um dos melhores baixistas, se não o melhor; e John Bonham era um dos melhores bateristas, se não o melhor. Jimmy Page podia ser quem quisesse, e, quando lhe apetecia, era verdadeiramente um bluesman, arrastando os Led Zeppelin com ele.

A listagem de temas é de peso: várias versões diferentes de clássicos como You Shook Me, Black Dog ou da eterna balada Stairway to Heaven. Mas há alguns momentos ainda mais especiais, quando Robert Plant infiltra um número gaguejado de Elvis em That"s Allright Mama durante a perpetuação de Whole Lotta Love, na atuação no Paris Cinema. Ou aquela sensação ilusória de parecer estarmos a ouvir um belíssimo ensaio do grupo, durante o prolongamento de Dazed and Confused, também para as sessões gravadas no Paris Cinema. Fica a nu o que valem os Led Zeppelin: é puro diamante.

Em nenhum momento, as gravações radiofónicas contêm as feras. É tudo maravilhosamente selvagem.

The Complete BBC Sessions, Led Zeppelin

Atlantic - PVP: 28 euros

***** excecional

Cada vez mais versáteis

Continuam bem firmes, os lisboetas You Can"t Win, Charlie Brown. A banda tem uma personalidade forte, com muitos elementos à volta (bem ativos noutras frentes, como David Santos, conhecido pelo projeto Noiserv, ou João Gil, que milita também nos Diabo na Cruz e tem o pseudónimo de Vitorino Voador), capazes de enriquecer a expressão musical dos You Can"t Win, Charlie Brown, nomeadamente na panóplia teclada. Mesmo que vindos do universo indie-folk barbudo dos Iron & Wine, o ecletismo da banda portuguesa continua a crescer e a secundarizar cada vez mais eventuais influências. É o que se pode dizer deste terceiro álbum do sexteto de Afonso Cabral. Em Marrow, sobressaem mais enfeites eletrónicos, como bem avisa logo a faixa de abertura, Above the Wall, mas que If I Know You, Like You Know I Do explora ainda mais com todos aqueles efeitos de sintetizadores.

Depois, confirmam-se méritos que vêm de trás. Os You Can"t Win, Charlie Brown são um dos raros casos nacionais em que a música não perde a fluidez apesar do esforço no uso da língua inglesa (que por muito familiar seja, será sempre uma língua estrangeira). Um dos melhores exemplos é a canção Pro Procrastinator, onde a banda passaria indistintamente como uma banda norte-americana.

O coletivo tem ainda a destreza de descortinar uma das suas baladas mais comoventes de sempre como o desapressado e tão terno Mute, com um charme de final de tarde saboroso. O grupo sabe também fazer alguns dípticos como Bones, cujo início vagaroso está nos antípodas da exaltação eletrónica dos segundos finais. Fica só a sensação de que Frida (La Blonde) teria mais a ganhar se mais leve dos arranjos de cordas, tendo ganho um peso acrescido e nem por isso complementar.

Marrow, You Can"t Win, Charlie Brown

Sony Music - PVP: 14 euros

*** bom

Um disco engasgado nos seus dilemas

Numa era em que os músicos trocam mais ideias pela net do que numa sala de ensaio, é comovente ver uma banda como as Warpaint em que se sente uma química de amizade tão forte em palco como nas canções. Tudo nas Warpaint é espírito de grupo. As músicas são jams que se repartem noutras fases como se já fossem a faixa seguinte. E cada música vai largando uma deixa inusitada a 30 segundos e o rumo pode mudar a qualquer momento. Cada tema é um esforço de equipa que empurra mais além a aventura musical.

As guitarristas Theresa Wayman e Emily Kokal continuam a dividir as composições entre si, como se fossem Lennon e McCartney, com letras que seguem as montanhas russas emocionais das desconexões de um casal. A poderosa secção rítmica formada pela baixista Jenny Lee e pela baterista Stella Mozgawa é a pulsação cardíaca da banda que nunca falha. Todas juntas, complementam-se vocalmente como se partilhassem o mesmo cérebro.

Tudo o que está escrito nos primeiros parágrafos é válido para o terceiro álbum das californianas, Heads Up, mas novas vulnerabilidades que não estavam nas contas da formação. A inédita piscadela das Warpaint ao mainstream do single de apresentação New Song não se projeta no disco. O apetite radiofónico da canção é o grande pico otimista de um disco engasgado nos seus dilemas. Grande parte das canções de Heads Up dificilmente teria lugar nos dois álbuns anteriores, The Fool (de 2010) e Warpaint (de 2014). Duas das raras exceções superlativas são o tema-título Heads Up e Above Control, que avançam com a macieza de uma aurora, através de um suave entrelaçamento de guitarras (que não são bem góticas, nem dream-poppers) e de várias vozes simultâneas. Falta a pertinência destas duas canções ao resto do disco.

Heads Up, Warpaint

Rough Trade - PVP: 14 euros

** com interesse

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