A "menininha" Tété Alhinho criou os filhos e agora regressa aos discos

"Mornas ao Piano" marca o regresso da cantora e compositora cabo-verdiana que atua no Tivoli e na Casa da Música, a 10 e 11 deste mês, no âmbito do Misty Fest. Um disco íntimo que nos leva aos seus tempos de menina.

Tété Alhinho era "a menininha de toda a gente" no Mindelo, onde nasceu. Às vezes as irmãs mais velhas "entravam-lhe" (batiam-lhe) e tinha de vir a mãe defendê-la, dizendo: "Parece que encontrei esta miúda num bidão desses que vêm de São Tomé. Vocês maltratam-na." A mãe, natural de São Vicente, chamava-se Auta, e depois de o piano entrar lá em casa, tinha Tété 5 anos, perguntava: "Valha-me Deus, mas isto não para?"

E é para a mãe a primeira canção de Mornas ao Piano, esse álbum feito "de afetos, de memórias, de tudo aquilo que é bom, que temos cá dentro". Chama-se Mindel de Mãe Auta e foi composta e escrita por Tété, que no dia 10 leva o disco ao palco do Tivoli, em Lisboa, e no dia seguinte à Casa da Música, no Porto. Ambos os concertos, que têm como convidado o músico Dany Silva, acontecem no âmbito do Misty Fest, que começa hoje e até dia 19 leva a sete cidades do país músicos como Céu, James Rhodes, Benjamin Francis Leftwich ou os Gaiteiros de Lisboa.

A primeira vez que ouvimos alguma coisa deste álbum foi em abril de 2015, na casa de Tété, em Santiago, quando ela, com Ricardo de Deus ao piano, mostrava Lua Bonita, outra das canções do disco. Mas Mornas ao Piano tem as suas raízes muito atrás: nesse tempo em que Tété era menina e ouvia, antes de dormir, a voz de Bana na Rádio Barlavento. Tempo em que o piano da casa animava os muitos irmãos de Tété (eles eram 15, entre eles o jogador e treinador de futebol Carlos Alhinho, embora nem sempre vivessem todos juntos), que cantavam e tocavam de ouvido. Tempo, ainda, em que Tété aprendia com a Dona Tututa (compositora e pianista, figura emblemática de Cabo Verde) o que fazer com a mão esquerda no piano, para tocar mornas. Quanto à voz, ela, que antes de cantar dançou coladeira, charleston ou twist, mostrou a sua numa festa da escola. Cantaria depois com grupos como Voz de Cabo Verde, Os Tubarões, de Ildo Lobo, ou Simentera, com o músico e agora ex-ministro da Cultura Mário Lúcio.

Tété lembra-se da sua mãe, que adorava cantar, atrás dela a dar-lhe "um ovo quente para a voz". E quanto ao pai, que sempre foi muito severo com as suas irmãs, mas não com ela: "Achava muita graça que eu cantasse, que eu dançasse, uma coisa que não se explica, talvez ele já estivesse cansado de reprimir." O pai, um alentejano que pertencia à Marinha e se apaixonou "pela terra e pelas mulheres de Cabo Verde", voltou ao arquipélago, com a reforma antecipada, e quando lá chegou, "na altura da fome", década de 1940, foi tirar o milho que estava num barco encalhado, o John Schmeltzer, e desencalhar outro, o D. João de Castro. Depois disso, montaria a primeira rede de distribuição de água do Mindelo. "Eu nasci no melhor momento da minha casa. Vivi os anos dourados da minha família. Nunca me faltou nada", conta.

Mas voltemos a 2015, altura em que já se trabalhava no álbum que haveria de sair em abril de 2017. Por essa altura, Mónica Jardim, que faz assessoria de imprensa e management, havia mergulhado no arquivo de Tété. "Essa foi a viagem que eu fiz para dizer: "Tété, eu acho que devias gravar um disco"", recorda. "Eu estava encalhada, e ela desencalhou-me", conta num sorriso a autora cabo-verdiana que não lançava um álbum desde Voz (2002).

E se perguntarmos por onde andou Tété Alhinho de todas as vezes em que não a vimos, eis a resposta: "Eu criei três filhos, gravei uns nove trabalhos, fiz 13 anos com Simentera, construí uma casa, faço a gestão de um consultório [do marido, que é dentista], tenho um turismo habitacional." Quase apetece suspirar no fim. Agora os filhos - entre eles a também cantora Sara Alhinho - estão criados e Tété quer dedicar-se à carreira. Neste disco em que a ouvimos cantar clássicos como Sina de Cabo Verde ou Dor de Nha Dor, que muitos terão conhecido na voz de Bana, Tété Alhinho recupera ainda C'lamor, uma composição sua que faz parte também do álbum Voz, e canta N'Tem Um Amor e P'Auta, dois temas de Mário Lúcio.

Foi preciso chegarmos quase ao fim da conversa para percorremos a geografia que é da própria Tété, nascida no Mindelo. O 25 de Abril, e consequente independência, acontecem no ano em que ela começaria a universidade. Com o boicote aos exames de admissão em Lisboa, onde estudaria Educação Física (desistiu de Tradução, um curso caro, para não sobrecarregar o pai, já doente), conseguiria uma bolsa para ir para Cuba, devido a uma desistência. Não estudou Medicina porque o curso tinha oito anos e ela tinha deixado um namorado à espera. Mas não foi com ele que se casou. Ao marido conhecê-lo-ia no México, onde teve os dois primeiros filhos e de onde saiu grávida de sete meses para vir para Lisboa, onde viveu antes de regressar a Cabo Verde, e onde deu aulas de aeróbica. E foi em viagens de autocarro entre o Marquês de Pombal e Carnaxide que Tété, cansada, compôs canções como Chibinho, dirigida à sua mãe. "Vem cantar-me com a tua voz doce e dar-me forças para eu continuar."

Veja o programa completo do Misty Fest aqui

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