A magia muito real de Harry Potter

Vassouras voadoras, unicórnios e dragões misturados com apontamentos de J.K. Rowling na British Library, em Londres

A capital britânica tem uma mão-cheia de locais ligados ao mundo mágico dos livros e dos filmes da série Harry Potter. De óculos redondos e varinha na mão, os aficionados podem fazer passeios temáticos, visitas aos estúdios da Warner Bros ou assistir à peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, que estreou no verão passado no Palace Theatre. Agora há mais uma atração turística. Ao longo dos próximos quatro meses, a British Library - a biblioteca nacional do Reino Unido, uma das maiores do mundo - tem uma exposição dedicada ao mágico Harry e à história da bruxaria e da magia.

A British Library, curiosamente, fica a dois passos da estação de King"s Cross, outra das grandes atrações dos fãs de Potter (nos livros e nos filmes da série, os alunos da Escola de Bruxaria e Magia apanham o Expresso de Hogwarts na "Plataforma 9 3/4" desta estação).

A mostra, intitulada Harry Potter: A History of Magic, coincide com o 20.º aniversário da publicação do primeiro livro da série (em Portugal, o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal foi publicado com dois anos de atraso, em outubro de 1999). A exposição combina mais de uma centena de objetos da biblioteca ou de outros museus britânicos e estrangeiros com material original dos arquivos da autora J.K. Rowling e da Bloomsbury, a editora de Londres que em 1997 apostou na escritora desconhecida e publicou todos os livros da série desde então. "A nossa exposição explora a história, a mitologia, as tradições, as lendas e o folclore por detrás das histórias de Harry Potter", explicou ao DN Julian Harrison, o curador principal da mostra. "Muitas das coisas que os fãs [de Harry Potter] julgam ser imaginárias têm, na verdade, algum fundo de verdade ou de folclore: vassouras voadoras, caldeirões, unicórnios, dragões."

Para os mais fanáticos, o ponto alto da exposição serão os vários tesouros dos arquivos pessoais de J.K. Rowling

As salas misteriosas e sombrias da galeria da British Library têm, de facto, um pouco de tudo isso. Uma vassoura mágica. Uma pedra de bezoar, a que antigamente se atribuíam propriedades curativas contra males e envenenamentos (Har-ry usou uma em Harry Potter e o Príncipe Misterioso). Um caldeirão milenar, encontrado nos fundos do rio Tamisa. Há também curiosidades como uma pequena bola de cristal que no século passado pertenceu a uma bruxa do Sudoeste da Inglaterra conhecida como Smelly Nelly, ou Nelly Fedorenta (ela achava que os perfumes muito fortes atraíam os espíritos).

A história mistura-se a toda a hora com a ficção dos livros de J.K. Rowling. Uma das peças mais imponentes em exposição é a pedra tumular de Nicolas Flamel, emprestada pelo Museu Nacional da Idade Média, em Paris. Em Harry Potter e a Pedra Filosofal, ele é o alquimista, amigo de Albus Dumbledore, que conseguiu criar a pedra filosofal e viveu mais de 650 anos. Na realidade, Flamel era um burguês rico parisiense que morreu em 1418 com fama de alquimista. Rowling, que visitou a exposição na semana passada, tuitou uma fotografia da pedra ("Adivinhem o que é isto. Acabei de ver e fiquei fascinada!", escreveu ela para os seus 13 milhões de seguidores).

Os objetos estão arrumados tematicamente de acordo com as disciplinas ensinadas na Escola de Bruxaria e Magia de Hogwarts. Na sala da Adivinhação, por exemplo, podem ver-se ossos oraculares chineses com inscrições com mais de três mil anos - este item, aliás, é o tesouro datado mais antigo de toda a coleção da British Library. Os chineses faziam adivinhação por intermédio do fogo aplicado sobre os ossos. A sala dedicada à Astronomia é dominada pelo fantástico globo celestial, do final do século XVII, do monge franciscano Vincenzo Coronelli. A British Library deu-lhe vida nova com uma série de ecrãs interativos e tecnologia de realidade aumentada desenvolvida em colaboração com a Google Arts & Culture. Os visitantes podem explorar os céus e descobrir estrelas e constelações como a Sirius ou a Draco, que inspiraram nomes de personagens dos livros de Harry Potter.

Esta não é a única experiência interativa da mostra. Ouvem-se feitiços sussurrados misteriosamente através das paredes da galeria. Os corredores têm livros abertos voadores ou frascos de poção mágica que flutuam no teto. Os mais angustiados podem prever o futuro num jogo de tarot digital. Na sala dedicada às Poções, os visitantes podem combinar elementos e criar uma poção mágica única.

A exposição tem, naturalmente, tesouros centenários retirados da secção de reservados da British Library: o primeiro registo escrito da fórmula mágica Abracadabra, por exemplo. Ou anotações de Leonardo da Vinci, um Ripley Scroll do século XVI e diversas iluminuras medievais de dragões, mandrágoras, bruxas, sapos e cobras.

Para os devotos mais fanáticos do universo Potter, o ponto alto da exposição serão os vários tesouros retirados dos arquivos pessoais de J.K. Rowling e da Bloomsbury. A lista inclui a sinopse do primeiro livro da série, datilografada por Rowling em 1995, um esquema anotado da Escola de Hogwarts desenhado minuciosamente pela autora, trechos eliminados dos livros e a primeira página, manuscrita e rasurada - Rowling escrevia sempre à mão e com caneta -, do capítulo 17 de Harry Potter e a Pedra Filosofal.

O objeto mais tocante, no entanto, é o papel meio amachucado que tem uma nota rabiscada a lápis por Alice Newton, uma criança de 8 anos: "A emoção neste livro fez-me sentir quente dentro de mim. Acho que este é um dos melhores livros que um menino ou menina de 8 ou 9 anos pode ler", escreveu Alice. A nota era dirigida ao pai, Nigel Newton, um dos fundadores da Bloomsbury. Ele mostrara à filha os primeiros capítulos de Harry Potter e a Pedra Filosofal que integravam a proposta de livro assinada por Rowling. Segundo Nigel, a nota positiva dada por Alice foi decisiva. A Bloomsbury foi a única editora a oferecer um contrato a J.K. Rowling.

Duas décadas mais tarde, o fenómeno Harry Potter traduz-se em sete livros (mais de 450 milhões de exemplares publicados em 79 línguas), oito filmes, uma peça de teatro e parques temáticos na Florida e no Japão. Joanne Rowling, de 52 anos, é atualmente uma das mulheres mais ricas do Reino Unido, com uma fortuna que o Sunday Times avaliava em maio passado em 650 milhões de libras (727 milhões de euros) - quase o dobro da fortuna da rainha Isabel II.

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