A "geometria límpida" de Jorge Pinheiro

A Fundação Carmona e Costa mostra 80 obras do pintor, em paralelo e em parceria com Serralves. Desde um quadrado que não é quadrado e se desfaz no espaço até à pintura "O Guarda, o Pão e o Camponês".

São desenhos, pinturas, esculturas, tudo saído diretamente do ateliê de Jorge Pinheiro para o sexto andar onde está instalada a Fundação Carmona e Costa, em Lisboa. Os trabalhos estão datados de 1969 a 2017, e na verdade muitos deles são de 2016 e 2017, porque esta é uma exposição que está a ser pensada há três anos.

Finalmente, portanto, a Fundação Carmona e Costa mostra a obra do pintor nascido em 1931 em Coimbra, que foi um dos "Quatro Vintes" - com Ângelo de Sousa, Armando Alves e José Rodrigues - e que foi toda a vida professor - "mestre-escola", como ele diz - nas faculdades de Belas Artes do Porto e de Lisboa.

Inaugurada no dia 23 de setembro, uma semana depois da abertura da mostra do mesmo autor na Fundação de Serralves, no Porto, esta é numa coprodução que se materializa também num único catálogo.

O poeta e crítico de arte João Miguel Fernandes Jorge é o curador da exposição, para a qual escolheu música de Schönberg. No texto escrito para o catálogo, ele fala de "uma arte maior, em que se restitui à hora da mais curta sombra o dispositivo límpido da geometria e a autenticidade das formas operantes da vida".

Pintor e poeta trocam informações e algumas brincadeiras enquanto percorrem a exposição. Discreta, Maria da Graça Carmona e Costa, presidente da Fundação, acompanha a visita, e apenas comenta, de vez em quando e em voz baixa - "extraordinário","maravilhoso". Está visivelmente contente com a exposição do velho amigo.

O curador explica a estrutura da exposição e confessa: "Às vezes as coisas são sem porquê, funcionam bem. Escolhi 1969 como data inicial porque são obras que dão saída para outras". A ordem da exposição não é cronológica, vai evoluindo por analogias, contrastes, temas. Tinha na cabeça a disposição das obras mas foi quando as viu expostas que se apercebeu "da melancolia do desenho, uma melancolia tranquila, segura". Fala da série de desenhos que ocupa uma das salas: "Um jogo prodigioso de um quadrado que se lança no espaço". Jorge Pinheiro concorda: "É uma coisa muito lúdica, eu ansiava dar uma terceira dimensão, numa perspetiva simulada que não é real, que é impossível".

Uma série de figuras humanas está reunida numa parede, e o curador diz que ao vê-las pensa "em figuras de romance, em Aquilino Ribeiro, Stendhal, Dostoievski, Régio", mas que nunca falou com Jorge Pinheiro sobre isso. Diz este último: "É possível. É uma figuração neta ou bisneta do neorrealismo. Li esses autores no fim da minha adolescência e esse universo ficou-me. São croquis feitos de cor, é o que me está no subconsciente e vai diretamente do produtor ao consumidor."

Diante de uma série de desenhos, conta que o editor José da Cruz Santos queria fazer um livro com poemas de Eugénio de Andrade e desenhos seus. No meio de uma longa conversa em casa de Eugénio, de quem era amigo, perguntou-lhe quais eram os seus fantasmas. "Ele respondeu: a mulher de negro, a criança e o pastor. Fui para casa e não me saiu nada. Mais tarde ele adoeceu, telefonei-lhe para o hospital e e leu-me um poema muito curto, creio que o último que escreveu, mas no fim disse: Hospital de Santo António, tantos de tal. Foi um balde de água fria. Depois da morte do poeta, o editor enviou-me um texto dele sobre as mulheres da Beira Baixa. Aí sim, era a mulher de negro." É o livro Chuva sobre o Rosto (Afrontamento, 2011). Outro encontro, este com Vasco Graça Moura: "Num tempo em que eu andava numa de neo-clássicos, refiz para ele uma série de desenhos", publicados em Sombras com Aquiles e Pentesileia (Quetzal, 1999).

O pintor do rigor, que faz sucessivos estudos para cada quadro e que se dedica à filosofia e à matemática, ri-se a apontar um desenho (foto de cima) que devia ser um möbius mas está errado, porque lhe cortou uma volta (möbius é um espaço obtido colando duas extremidades de uma fita depois de dar meia volta numa delas).

A última sala é presidida pela pintura O guarda, o pão e o camponês (com os estudos prévios), feita na sequência do assassínio dos alentejanos José Geraldo Caravela e António Casquinha, em 1979. "Tinha de fazer qualquer coisa" e ficou-se "no conflito interior do guarda republicano. Não têm nada um contra o outro, são da mesma classe, há qualquer coisa contra os dois. O pão é simbólico no meio deles. O camponês olha para ele desassombradamente e o outro, culpabilizado, olha para baixo."

A 13 de outubro, às 18:00, há na Fundação um debate com Filomena Molder e João Miguel Fernandes Jorge sobre a obra do pintor.

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