A Europa e os seus impasses assombram os filmes de Cannes

A Europa em crise também está no festival. Em Cannes, alguns dos títulos marcantes refletem os nossos impasses europeus: "Happy End", de Michael Haneke, é o mais importante.

Foi você que disse Europa? Podia ser esse o lema da 70.ª edição do Festival de Cannes (a decorrer até domingo), de tal modo os impasses, hesitações e contradições do projeto europeu contaminam algumas das suas obras mais marcantes. O austríaco Michael Haneke, já vencedor de duas Palmas de Ouro (O Laço Branco e Amor), di-lo através da frase promocional do seu novo e prodigioso filme, Happy End (competição): "O mundo à nossa volta e nós no meio, cegos."

O tema surgira, em tom quase fantástico, no filme húngaro Jupiter"s Moon, de Kornel Mundruczo, refletindo-se também no mal-estar que circula por The Square, do sueco Ruben Östlund. Happy End não é alheio a tudo isso, quanto mais não seja porque tudo se passa em torno de uma família que vive no Norte de França, em Calais, próximo da zona do imenso campo de refugiados que ficou conhecido como a Selva.

Como sempre, o trabalho de Haneke suscitou as paixões mais desencontradas. Em qualquer caso, a maioria dos jornalistas reconhecera que a informação que circulava - um filme "sobre" os refugiados - está longe de resumir adequadamente as atribulações narradas em Happy End. O tema está lá, sem dúvida, mas o filme organiza-se como um retrato das tensões interiores de uma família muito rica, proprietária de uma empresa de construções com atividade dos dois lados do Canal.

Entre as personagens principais surgem, assim, a gestora dos negócios, interpretada por uma Isabelle Huppert fria e implacável ("à maneira de Haneke") e o advogado inglês com quem se irá casar, composto por Toby Jones (que conhecemos, por exemplo, na personagem de Claudius, nos vários títulos de The Hunger Games).

Uma atriz de 12 anos

Não é muito cómodo reconhecê-lo, mas o que torna o filme de Haneke tão especial é o facto de recusar qualquer cumplicidade com a formatação temática da "crise" europeia que domina o nosso espaço mediático. Em vez dos temas grandiosos cuja pertinência não está em causa (os refugiados, a solidariedade, a coesão europeia, etc.), Happy End apresenta-se "apenas" como uma crónica de maníaca precisão sobre as convulsões de uma família atravessada por uma perturbante pulsão suicida.

Mais do que isso: a proximidade da morte contamina as duas personagens que a nossa boa consciência gostaria de associar a uma inocência redentora. Assim, em primeiro lugar, temos o velho patriarca da família, interpretado por um Jean-Louis Trintignant de admirável minimalismo; depois, surge a sua neta - de nome inevitavelmente simbólico: Eve -, menina de infinita seriedade e mistério que, em silêncio, já integrou a mais trágica imagem da morte.

Dizer o que acontece em torno de Eve seria desvendar elementos fulcrais da intriga. Sublinhemos apenas que a sua composição por Fantine Harduin é das coisas mais belas e perturbantes que já vimos este ano em Cannes. De nacionalidade belga, com 12 anos completados no passado mês de janeiro, tornou-se conhecida no seu país aos 7 anos como revelação do programa televisivo Belgium"s Got Talent. Agora, sob a direção de Haneke, impõe-se como uma verdadeira aparição cinematográfica.

Se o júri oficial, presidido pelo espanhol Pedro Almodóvar, quiser ser genuinamente ousado (e, já agora, europeu!), talvez lhe atribua o prémio de melhor interpretação feminina. Nesse caso, o lema da cegueira poderá ser convertido num outro, há muitos anos enunciado por Jean-Luc Godard: "Os cegos falam de uma saída - eu vejo."

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