A cartada forte de Ivo M. Ferreira

Cartas da Guerra, Ivo M. Ferreira

Dos muitos méritos de Cartas da Guerra há um deles que nos toca à primeira: a sua recusa de fazer um filme sobre o António Lobo Antunes jovem. Ele está lá mas o filme depois não é isso. Nem isso nem um "biopic" com discurso enviesado da História. Cartas da Guerra é sim um documento romântico sobre o português, feito sem "especialidade lusitana" de carpir as mágoas, mesmo quando elas lá estão no relato de um "homem sombra", perdidamente apaixonado pela sua mulher mas simultaneamente horrorizado com o que testemunha.

Objeto de um singularidade única, com uma progressão dramática invulgar (quase sempre apenas guiado pela narração das cartas do jovem médico), Cartas da Guerra está visitado (ou assaltado ou possuído...) pela literatura. As palavras de Lobo Antunes no preto e branco siderante da fotografia a de João Ribeiro levam-nos para um estado de espírito de um imaginário próprio de África. Só nos resta deixarmo-nos ir nas letras tragicamente românticas do escritor.

Depois há também um ator com poderes telepáticos com o espetador, Miguel Nunes. Um ator espantoso para um realizador que agora sim mostra ter fôlego para as longas.

Classificação: *** Bom

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