A baronesa Thyssen ameaça retirar as obras do museu com o seu nome

Em causa está a possível saída do país de 429 obras que hoje estão no museu madrileno. O acordo de empréstimo chegou ao fim. Carmen Cervera quer mostrar as obras pelo mundo, o Estado não quer que ela venda nem uma

É a quinta mulher do barão Hans Heinrich von Thyssen-Bornemisza e, se a coleção de arte deste, que apenas compete com a da rainha de Inglaterra, pode ser vista hoje em Madrid, no museu com o seu nome, é porque Carmen Cervera é espanhola. No início dos anos 90, as obras do multimilionário suíço foram disputadas pelo Príncipe Carlos e Margaret Thatcher, e pelo presidente francês François Mitterand, recordava o jornal Guardian no obituário do barão, em 2002. Mas este, nascido na Holanda e herdeiro de um título húngaro, haveria de vender as 775 obras ao Estado espanhol em 1993 por 350 milhões de dólares.

A baronesa viúva ameaça agora retirar do Museu Thyssen-Bornemisza a sua própria coleção, composta por 429 obras ali depositadas desde 1999 em regime de empréstimo gratuito. O acordo terminou na segunda-feira e as obras, avaliadas em 800 milhões de dólares (cerca de 750 milhões de euros) segundo o jornal espanhol El País, podem sair do país se não houver consenso entre os advogados de Tita, o petit nom da baronesa, e o ministério da Cultura.

São mais de mil, entre as obras vendidas pelo barão e as de Carmen - das quais cerca de metade estão expostas. Atravessam a história da pintura do século XIII ao século XX e a viúva tem dito que gostaria de as ver sempre expostas em conjunto. Carmen Cervera afirmou ontem ao El País que renovaria a concessão gratuita ao Estado se pudesse "dispor anualmente de umas 60 obras para poder realizar exposições dentro e fora de Espanha", algo que diz ter feito durante a direção do museu de Tomás Llorens e que tem sido impossível durante a atual, de Guillermo Solana.

Fontes da tutela dizem que a baronesa quer vender alguns quadros da sua coleção. Fê-lo, aliás, em 2012, com o quadro The Lock, de John Constable, gerando indignação em Espanha. Acabaria por vender a obra na leiloeira Christie"s por 27,89 milhões de euros. Justificou-o dizendo que precisava de liquidez. Segundo o último acordo, a baronesa tinha direito a vender 10% do seu espólio, avaliado em 800 milhões de euros. Agora, o ministro da Cultura Íñigo Méndez de Vigo já afirmou que esta separação de obras não deve acontecer "e que a proibição de vender novas obras deve constituir parte do acordo". Méndez de Vigo acrescentou ainda que a baronesa Thyssen pede condições relativas à venda de "determinadas obras da coleção".

Carmen Cervera admitiu ao El País que quer que a sua coleção fique em Espanha "por muitos anos mais", mas confessou que nestes anos só tem tido gastos. "Chega uma altura em que tenho de pensar nos meus herdeiros e que não vou ser eterna. Enquanto eu viver, a coleção não se pode dividir, mas a situação pode dar muitas voltas", disse ontem.

Recorde-se que o Estado financiou uma ampliação do museu - que residiu sempre no Palácio de Villahermosa, adaptado para tal pelo arquiteto e prémio Pritzker Rafael Moneo - para receber a coleção da baronesa. A ampliação seria inaugurada em 2004. A tutela já informou, todavia, que existe um "plano B" expositivo que contempla a saída da coleção da baronesa do museu madrileno, vizinho do Prado e do Reina Sofía. Entre elas destacam-se obras como Mata Mua, de Paul Gauguin, Campo de Trigo, de Pierre-Auguste Renoir, A Ponte de Charing Cross, em Londres, de Monet, ou Mulher e duas crianças junto a uma fonte, de Goya.

O secretário de Estado da Cultura Fernando Bezo disse à imprensa espanhola que o desfecho do caso deverá ser conhecido antes do final da semana. Em março, Carmen Cervera inaugurará um novo museu em Andorra, que será o terceiro com o seu nome. Os outros estão em Sant Feliú de Guíxols e em Málaga.

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