A arte de contar no próprio corpo o passado e o futuro

O coreógrafo congolês Faustin Linyekula apresenta duas criações no Alkantara Festival, continuando o programa Artista na Cidade

Faustin Linyekula não é apenas o Artista na Cidade 2016 ou o criador que usa a história do seu corpo para contar a história do Congo, o país onde nasceu e para onde regressou em 2006. "É um homem pivô no continente africano. É só chegar a Kinshasa (onde Faustin fundou os Studios Kabako, em 2001, transferindo-os cinco anos depois para Kisangani) e percebe-se logo a imensidão daquilo que ele faz mexer. Não só por ser um criador mas também por partilhar o seu conhecimento com as novas gerações", começa por dizer Thomas Walgrave que escolheu para esta edição do Alkantara Festival duas obras do coreógrafo e bailarino.

Sur les Traces de Dinozord (dia 1 e 2 de junho, na Culturgest) revisita uma obra apresentada no festival em 2008, a terceira da série de espetáculos desenvolvida com amigos, artistas, bailarinos e coreógrafos "sobre a relação destes com a história, sobre o contexto em que se inserem e sobre o papel que a arte ocupa em tudo isto". Linyekula dedicou Dialogue Series: III. Dinozord ao seu amigo Antoine Vumilia Muhindo, escritor e preso político condenado à morte, contan- do a história dos seus amigos de infância e da sua cidade berço, Kisangani, devastada pela guerra. "Dinozord era um rapaz de rua em Kinshasa que começou a dançar com Faustin e se tornou um artista incrível, bailarino principal da peça que contava também com o contratenor Serge Kakudji. Entretanto, Vumi conseguiu escapar da prisão e as circunstâncias de todos alteraram-se de tal forma que Faustin decidiu contar isso em palco, convocando todos eles", conta Walgrave.

A segunda peça é Dialogue Series: IV. Moya (4 e 5 de junho, no Teatro São Luiz) e é a mais recente criação de Linyekula, resultado do encontro do congolês com a bailarina sul-africana estrela da companhia de Anne Teresa de Keersmae-ker. Moya cresceu mestiça no país do apartheid, escolheu dançar, partiu para Bruxelas para frequentar a mais dura das escolas europeias de dança contemporânea - a P.A.R.T.S -, teve sucesso, tem um filho e tudo isto faz parte da espécie de solo que a traz ao Alkantara.

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