A aldeia onde os quintais se transformam em esplanadas

A ligação a Cem Soldos, a cinco quilómetros de Tomar, é a imagem de marca do Bons Sons. Uma aldeia onde só se entra com pulseira, amarela, vermelha, preta ou azul, depende ao que se vem, e onde as portas das casas e dos quintais abrem-se para fazer restaurantes e esplanadas.

"Está com calor? Tome o leque, tome." Estamos com calor, pois estamos, e sabe-nos tão bem aquele arzinho fresco. Laurinda Salvador tem 75 anos e não sai de casa sem o seu leque. "Nasci em Cem Soldos, aqui me batizei, fiz aqui a profissão de fé e a primeira comunhão, aqui me casei aos 20 anos e aqui enviuvei há sete anos e meio", diz, em jeito de apresentação, quase sem pausa para respirar. No entanto, e por incrível que pareça, este é o primeiro ano em que sai de sua casa, que "fica lá do outro lado, já quase fora da aldeia", para vir ao festival Bons Sons. "Sou muito caseira, sabe?" Mas, desta vez, quis vir. Ti Laurinda, como lhe chamam, é uma das protagonistas do documentário Esta Gente, realizado por um grupo de jovens do SCOCS - Sport Clube Operário de Cem Soldos com as pessoas mais velhas da terra. "Contei muitas coisas sobre o antigamente", conta entre risos, "ainda não vi mas vou ver agora".

No auditório, onde o documentário foi ontem à tarde apresentado ao público pela primeira vez, Ti Laurinda não consegue evitar rir--se de si mesma e do que vê no ecrã. "Não sei se gostei", comenta no final, "mas a nossa vida era mesmo assim, ia dizer o quê"? Quando era pequena, Laurinda sonhava ser professora, mas acabou por só estudar até à 4.ª classe. "Os meus pais não me deixaram continuar, tinha que ajudar a tomar conta dos irmãos e trabalhar." Trabalhou no campo, apanhando azeitonas ou figos, serviu numa casa em Tomar, trabalhou na costura. Casou-se aos 20 anos com o namorado que tinha desde os 9: "Não nos podíamos encontrar sozinhos, era tudo muito controlado. Mas não serviu de nada, casei-me já grávida." Esconde a cara com a mão, a rir-se.

São histórias como estas que são contadas no documentário pelos velhotes de Cem Soldos e que fazem rir os festivaleiros que enchem o auditório, todos os lugares ocupados, alguns sentados nas escadas. "Gostei tanto", diz, sem hesitar, Carina Ferreira, de 18 anos. "Fez-me lembrar dos meus avós, que já morreram. É muito importante alguém guardar estas histórias, para não se perderem." Carina veio de Ferreira do Zêzere com um grupo de amigos e vai ficar até domingo no parque de campismo criado propositadamente para o festival. "Já é a terceira vez que venho, é um festival muito especial, tem um ambiente diferente de todos os outros por causa desta ligação à aldeia e às pessoas daqui. A gente anda na rua e é como se toda a gente se conhecesse."

Uma aldeia fechada. Para entrar é preciso pulseira - amarela para os festivaleiros, preta para a organização, vermelha para os voluntários, azul para as pessoas da terra. Passa-se a entrada da igreja ou a entrada das Hortas, ou a da Calçada ou a da Escola, e estamos em Cem Soldos, ou seja, estamos no Bons Sons.

Os palcos ficam nas praças, num coreto improvisado, na eira (para melhor aproveitar o pôr do Sol) e até na igreja. Sim, na igreja. Logo às duas da tarde, o concerto de abertura aconteceu ali, com os cinco elementos do Alentejo Cantado no altar e o público espalhado pelos bancos e pelo coro alto. "Lá fora está uma braseira", cantam Pedro Mestre e companheiros com as suas vozes potentes. E é verdade. Se ao menos Laurinda estivesse aqui com o seu leque. Se calhar vamos apanhar uns borrifos que alguns dos voluntários mais novos andam a lançar sobre as pessoas nas ruas, ou então compramos um borrifador na barraquinha do merchandising: "Custam três euros mas valem cada cêntimo", assegura um amigo experiente nessas andanças.

Aqui, as portas das casas e dos quintais abrem-se para fazer restaurantes e esplanadas. Foi o que fez Ana Maria Cartaxo, que mora no Largo do Rossio, mesmo no centro da aldeia, de frente para o palco Lopes-Graça. "Desde a minha juventude que me lembro de o quintal já ser usado para as festas da terra, por isso quando foi o primeiro Bons Sons pediram-me para fazer aqui um restaurante", conta. É o Quintal Aleluia e é conhecido sobretudo pelos grelhados. Os vasos de flores ficam arrumados junto à parede, no telheiro é instalado um forno, na casa dos arrumos fica a caixa registadora, no meio do quintal põem-se mesas compridas. "Dá muito trabalho mas é muito giro", conta Ana Maria, que além de ter o quintal ocupado também tem a casa cheia de familiares e amigos, a dormirem nos sofás e no chão. "É só por uns dias, tudo se arranja."

É no Quintal Aleluia que são fabricados os bolos de erva-doce tradicionais de Cem Soldos e que só estão à venda nas festas de junho e no Bons Sons. A pôr lenha no forno e a tirar de lá os bolos fumegantes está Alzira Santos. No resto do ano é professora do ensino especial, mas na altura do festival é uma das 400 pessoas (todas voluntárias) que põe o Bons Sons a funcionar. "Todos ajudamos e, apesar do trabalho, divertimo-nos muito", assegura.

O festival ainda está a começar, há muita gente a chegar. As Pega Monstro já tocaram no coreto mas ainda sem enchentes. No Pátio das Laranjeiras há um porco a assar que está já no ponto para ser fatiado e comido com pão saloio. Na Adega de São Pedro vende-se charolinha, um vinho licoroso caseiro, feito pelas pessoas da terra. Enquanto os Indgnitu[Lat] fazem soar as suas guitarras no adro da igreja, Carlos e Joana deitam-se à sombra de uma árvore no tapete verde, a imitar a relva, junto ao palco Aguardela, e observam os filhos a correr de um lado para o outro. Vieram aos Bons Sons pela primeira vez e só têm bilhete para uma noite. "Nunca tínhamos vindo e não queríamos arriscar, mas agora até estamos com pena de não termos reservado hotel para mais noites", contam. "Queríamos ficar até à Kumpania Algazarra [concerto agendado para as 23.15], vamos ver se os miúdos se aguentam..."

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