"Uma visão que me emocionou profundamente"

Enquanto esperava pelo início de uma sessão de lançamento na Feira do Livro de Lisboa, a investigadora Raquel Varela recordou mentalmente o filme de Chaplin, Os Tempo Modernos, e a divisão do trabalho.

Ia apresentar um livro na Feira do Livro. Concentrada no que tinha para dizer, distraí-me por alguns segundos a ver quem chegava. Esses segundos foram longos. Porque chegavam, além dos amigos próximos e da família, trabalhadores do Metro de Lisboa, da Carris, médicos, alguns professores, estivadores de Lisboa e de Setúbal, da Auto Europa, e mesmo dois da ex-Lisnave dos anos 80. Aquela foi uma visão que me emocionou profundamente. Faço parte daqueles que acha que uma das maiores violências do capitalismo é a imposição da separação entre quem pensa e quem executa - que se espelha desde tenra idade nas oportunidades desiguais marcadas pela família e lugar de nascimento. É um artifício dividir o trabalho intelectual do manual, isso leva ao sofrimento - que Chaplin tão bem expressou no filme Os Tempos Modernos.

O senso comum gosta de atribuir ao povo características especiais - povo versus elites; povo vs políticos; pobres vs ricos... Há assim os que têm horror ao povo - muitos intelectuais -, povo que lhes aparece como uma massa de ignorantes prontos a linchar um criminoso comum à porta de um tribunal; e os que o olham como um belo, castiço, tradicional espelho da nacionalidade, livre nas suas escolhas, por mais boçais que sejam, ainda assim genuínas. Devo dizer que não partilho nenhuma destas teses: estou entre os que acham que há de tudo no povo, gente decente, corajosa, que chega ao fim do dia e fez o melhor que pode e consegue para, em condições laborais miseráveis, dar o melhor a si e aos seus; e há os que sucumbem à competição, à inconveniência e mesmo à brutalidade. E ainda creio mais: creio que o mesmo povo que até 24 de abril de 1974 em grande parte vivia acobardado perante a ditadura pode dar provas, no caso citado com a ajuda de um golpe de estado militar, de uma grande coragem, como se viu nos 19 meses seguintes ao 25 de Abril. Digamos que acho que os deuses e os demónios convivem dentro das mesmas pessoas. A banda filarmónica e a Casa dos Segredos podem coexistir no mesmo ser, e cabe-nos a nós, com responsabilidades públicas e acesso, infelizmente privilegiado, ao conhecimento complexo, dar uma opinião sincera sobre o que vemos e refletimos, deixando que, como em tudo na vida, as pessoas possam escolher, mas possam escolher depois de ouvir o contraditório. Seria paternalismo impor aos outros as nossas escolhas, mas é totalitarismo cultural não os confrontar com outras alternativas.

Teria sido para mim fácil fazer uma carreira académica restrita à academia. Hoje quando sou convidada para uma conferência quase não necessito de preparação porque são assuntos que domino e que trabalho diariamente, e é fácil transmitir num meio onde todos dominam a linguagem específica da área. Mas a isso não se pode resumir o papel de um intelectual. Temos obrigação de socializar, ou disseminar como agora se diz, o conhecimento produzido nas academias, desde logo porque ele é essencialmente de financiamento publico. Divulgar a ciência é uma obrigação moral. Mas não chega, é preciso que os temas que escolhemos ajudem a contrariar o pensamento único, dominante, o poder. Refletir, criticar, e procurar alternativas civilizadas a um mundo em crise profunda, é o meu desejo. Estou consciente de que é um contributo modesto para o tamanho dos desafios colossais que temos pela frente, como europeus e como trabalhadores do mundo, uma classe hoje tão diversa e heterogénea, entre o trabalho manual e o intelectual, entre o centro e a periferia, atravessada por questões tão complexas como o género, as migrações, as etnias, as línguas e as linguagens, o acesso à cultura tão desigual, etc. Porém, comum neste sentido primordial, é a classe que vive-do-trabalho.

O desafio hoje é assumirmos que temos responsabilidades históricas sobre os destinos do mundo, enquanto ideia central de fraternidade entre povos. Isso implica uma luta - indissociável - na defesa da liberdade e da igualdade. Na URSS não havia liberdade e isso causou estagnação económica. Mas a insegurança no emprego, que hoje domina os Estados europeus, ainda que em regimes democráticos, não trará nada à Europa que não seja também a estagnação económica, a queda na produção e, no limite, ainda que cíclica, a escassez da força de trabalho. Temos responsabilidade de exigir a liberdade efetiva, em que os direitos sociais tenham a dignidade dos direitos políticos; em que o direito ao emprego, como garante da sobrevivência, e o direito à dignidade de viver do trabalho e não da assistência social, sejam acarinhados com a determinação com que é hoje protegido o direito ao voto. Igualdade real para todos que permita dar segurança material para que as diferenças sejam respeitadas e floresçam a diversidade, a arte, a criação, as relações humanas densas. Acredito que encontramos no passado algumas respostas para estes desafios. E em quem trabalha os que têm força para mudar o mundo para melhor.

A história não se repete. Mas ensina-nos. Muito. Do seu desconhecimento nada de bom pode brotar.

O livro que eu queria encontrar na Feira: História do Povo dos EUA, de Howard Zinn.

LEIA AQUI "A MINHA AVENTURA NA FEIRA DO LIVRO"

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