"Maria Ondina Braga correspondeu à ideia que fizera dela"

A escritora e jornalista Carla Maia de Almeida recorda fase Maria Ondina Braga e o autógrafo que teve da autora em dois livros que levou para a Feira do Livro.

Foi na Feira do Livro de 1989, creio que no pavilhão da Ática. Tinha vinte anos, andava a tirar o curso de Comunicação Social na Nova e atravessava a «fase Maria Ondina Braga». Já tinha passado pela «fase Albert Camus», pela «fase Boris Vian», pela «fase Mishima» e por outras fases de luas literárias. Mas esses astros eram inatingíveis. No dia em que falei pela primeira vez com um escritor (neste caso, uma escritora), senti que tinha dado um grande salto para a minha humanidade.

A verdade é que eu era um bocado bicho do mato; e creio que teria piorado muito se não tivesse entrado no jornalismo. Estávamos na época em que se dava um pontapé numa pedra e nascia um jornal ou uma revista. Maria Ondina Braga também tinha sido jornalista, nascera em Braga (onde eu vivi dos 9 aos 11 anos) e, o que me parecia extraordinário, fazia anos um dia depois de mim. Não devemos subestimar o impacto simbólico que estas coincidências têm na formação do cérebro leitor. Agora que vou às escolas percebo isso muito bem.

Na solidão dos meus vinte anos, identificava-me com aquela tristeza lúcida que provinha da escrita dela. Contos, novelas, romance... Sempre uma escrita segura da sua subjetividade, com grande capacidade de empatizar com o real e devolvê-lo em palavras pensadas, maturadas, sensíveis. Não há ali arrogância nem subserviência face ao leitor; só a sabedoria própria de quem não se escondeu da vida e teve mundo (gosto muito desta expressão, «ter mundo»).

Maria Ondina Braga, a pessoa, correspondeu inteiramente à ideia que eu fizera dela. Era uma senhora muito amável, discreta e serena. Conversámos um bocadinho. Autografou-me dois livros, num dos quais escreveu: «À Carla, desejando-lhe um bom futuro.» Obrigada, Maria Ondina. Só o futuro o dirá.

O livro que eu queria encontrar na Feira: "Os quatro volumes dos Contos Tradicionais Portugueses, escolhidos e comentados por Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira."

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