O Shongololo Express terminou o seu percurso no Zimbabwe e eu termino estas histórias escritas alfabeticamente. Ao nono dia da viagem, saí do comboio para a região das colinas de granito até ao Grande Zimbabwe, situado na borda sudeste do planalto central e o maior monumento pré-colonial a sul das pirâmides egípcias. Lugar das fábulas mágicas, como a história das Minas do Rei Salomão, encontra as suas origens nas ruínas de uma antiga cidade construída pelo povo "rozwi". Fomos descobrir como esses povos antigos viviam e exploravam o ouro e a prata e que mais tarde seriam explorados por comerciantes árabes e portugueses. O regresso ao comboio fez-se em Oreti Siding, com partida para Somabhula. O dia seguinte esteve destinado ao Parque de Antílope, que tem 1200 hectares de savana aberta, lar do leão africano e de um trabalho conjunto para a conservação de leões. No final da tarde, o comboio partiu para Bulawayo. No dia seguinte, a paragem foi no Parque Nacional de Matopos, onde se encontra o túmulo de Cecil John Rhodes, colonizador e homem de negócios britânico, promotor do projeto de construção do caminho-de-ferro que ligaria o Cairo, no Egito, ao Cabo, na África do Sul, nunca realizado. Estávamos no cume de Malindidzimu, que significa "morro dos espíritos benevolentes". O túmulo esculpido em granito está cercado por um anfiteatro natural de pedras. No final do dia, Dete foi o destino seguinte, para se ir ter à Reserva Hwange, a maior área de vida selvagem do país, com uma variedade de animais e espécies de aves, embora mais conhecido pela sua prolífica população de leões. Depois, partimos para Thompson. E assim, no dia seguinte, finalmente chegámos a Victoria Falls, o fim da viagem. Desde 1904 que o comboio ali chega. Edifícios coloniais antigos, buganvílias e palmeiras fazem de cenário ao Victoria Falls Hotel, originalmente concebido como alojamento para trabalhadores da ferrovia Cabo-Cairo. Ao iniciar-se o projeto, a primeira ponte sobre o Zambeze foi localizada de modo a que os respingos das cataratas caíssem nas carruagens que passassem, razão pela qual o local foi escolhido um pouco abaixo do Boiling Pot e muito próximo das quedas de água. As Cataratas Vitória são uma das maiores revelações da natureza e correspondem aos desfiladeiros mais baixos do Zambeze. O fator mais importante para o sucesso deste hotel foi essa sua proximidade à água em queda, de onde se vislumbra uma das vistas mais notáveis do mundo, segundo a promoção, e um ícone das antigas viagens de grande luxo. Esta singular beleza na minha presença permite que, nesta última história, deixe um pensamento que, talvez, sintetize este meu caminho. Não há viagem sem utopia. E sem horizonte, pois, por mais que se caminhe, jamais o alcançaremos. Por isso, não deixei de caminhar na memória e na imaginação em procura incessante. A utopia serve para imaginar mundos e para os conhecer de diferentes modos. Depois, a prosa e a poesia atuam como estrelas inspiradoras e reveladoras de mistérios, de enriquecimento pela sabedoria provida de outros povos e, enfim, de liberdade, solidariedade e fraternidade. Nestas viagens, eu procurei o "não-lugar" da utopia, porque muitas vezes sinto que o lugar de que sempre parto é o lugar vazio que já pouco me diz. As palavras são como as pessoas. Nascem, mudam de rosto, envelhecem e morrem. E os idiomas são fronteiras fechadas, onde apenas uma língua se tornou no esperanto da contemporaneidade, com o perigo de muitas outras desaparecerem. Nós realizamo-nos e construímo-nos através de trocas com os outros e com a realidade envolvente e de sermos visitados por outras sensibilidades. E que bonito é conseguirmo-nos entender cada qual na sua língua. Tudo isto são instrumentos para sermos felizes. O segredo é estar disponível para que outras lógicas nos visitem, ou para nos aproximarmos delas em viagem, que é sempre um ensinamento. Em viagem, confirmamos que, na natureza com animais e vegetais, todos os conhecimentos estão interligados, mas nós, seres supostamente (mais) inteligentes, reduzimos o conhecimento, impedimos a compreensão dos problemas do mundo e não promovemos a transdisciplinaridade e a visão das coisas com as emoções. Do Afeganistão ao Zimbabwe, espero ter conseguido passar a diversidade do Planeta que, por agora, é o único visitável..Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.