Há 81 anos, Winston Churchill passou o Natal em Washington. O primeiro-ministro britânico reuniu-se com o presidente Franklin Roosevelt para planear o combate conjunto à ameaça nazi e nipónica, semanas depois do ataque do Japão a Pearl Harbor, e no dia 26 discursou aos membros do Congresso. Não falta quem compare esse momento decisivo com a viagem de Volodymyr Zelensky - a primeira fora da Ucrânia desde o início da invasão russa - à capital norte-americana. Mas mais do que os paralelos históricos e o simbolismo da deslocação, o que o presidente ucraniano deseja é que o país que mais tem ajudado militarmente aumente o nível de assistência, antes de a Câmara dos Representantes passar a ter maioria republicana e quando a Rússia se debate com dificuldades no terreno..Em março, o então primeiro-ministro britânico Boris Johnson comparou Zelensky a Churchill pela sua capacidade de liderar a resistência de um país sob ataque - e meses depois agraciou-o com o Prémio de Liderança Winston Churchill. O próprio presidente ucraniano já o citou mais do que uma vez nos seus discursos. E até a presidente cessante da Câmara dos Representantes, numa carta a recomendar aos seus colegas para estarem presentes "numa noite muito especial, que ficará gravada na história", evocou a passagem do líder britânico pelo Capitólio..Nancy Pelosi disse que o seu pai, o representante Thomas D'Alesandro Jr., assistiu ao discurso de Churchill. "Oitenta e um anos mais tarde, é particularmente comovente para mim estar presente quando outro líder heroico se dirige ao Congresso em tempo de guerra, e com a própria democracia em jogo", escreveu a democrata..Destaquedestaque51,8 Entre o início da invasão e 20 de novembro, a UE e os governos dos estados-membros - com a Alemanha e a Polónia no topo - apoiaram a Ucrânia com 51,8 mil milhões de euros, seguidos de 47,8 mil milhões por parte dos Estados Unidos..A visita, combinada pelo presidente Joe Biden e pelo homólogo ucraniano dez dias antes, segundo informou o Washington Post, coincide com a votação de legislação que inclui um pacote de assistência à Ucrânia no valor de 44,9 mil milhões de dólares (42,3 mil milhões de euros) e com o anúncio, por parte do líder dos EUA, de um valor adicional de 1,8 mil milhões de dólares (1,69 mil milhões de euros) em assistência militar..Do pacote maior, cerca de 12 mil milhões de dólares serão utilizados para repor os arsenais de equipamento dos EUA, 9 mil milhões de dólares do financiamento serão destinados aos militares, incluindo formação, armas, apoio logístico e salários e 13 mil milhões de dólares para apoio económico ao governo ucraniano. Os outros fundos destinar-se-iam a satisfazer necessidades humanitárias e de infraestruturas. O valor adicional dos 1,8 mil milhões é para a primeira transferência do sistema de defesa Patriot (mil milhões) e os restantes 850 milhões serão para equipamento que converte munições menos sofisticadas em bombas de precisão", adiantou a CNN..Destaquedestaque1.6% Segundo estimativas do Kiel Institute, a Estónia é o país que mais ajudou a Ucrânia (incluindo o custo com os refugiados), ao dispender 1,6% do seu Produto Interno Bruto, seguido da Polónia (1,5%), Letónia (1,4%) e Rep. Checa e Lituânia (ambos com 1%). No mesmo período, de 24 de janeiro a 20 de novembro, os EUA gastaram o equivalente a 0,2% do PIB.."A assistência de hoje inclui pela primeira vez o sistema de defesa aérea Patriot, capaz de derrubar mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos de curto alcance, e aeronaves a uma altitude muito superior do que os sistemas de defesa aérea anteriormente fornecidos", anunciou o secretário de Estado Antony Blinken..O sistema Patriot, usado pela NATO e vendido pelos Estados Unidos a aliados como Arábia Saudita, Israel, Japão ou Taiwan é um equipamento tido como de grande qualidade e eficiência, mas é um recurso dispendioso: cada míssil custa três milhões de dólares, pelo que não se espera que o seu uso seja banalizado. Por outro lado, a sua utilização na Ucrânia não é para amanhã..Um funcionário do Pentágono disse ao jornalistas que serão necessários "vários meses" para as forças ucranianas poderem operar o sistema, enquanto esclareceu que no que se refere à defesa aérea não há soluções perfeitas. "O Patriot irá complementar uma gama de capacidades de médio e curto alcance que fornecemos e que os aliados forneceram em pacotes de donativos anteriores", disse o funcionário..Antes do discurso aos senadores e representantes, Zelensky foi recebido na Casa Branca por Joe Biden e pela mulher, Jill, na terceira visita do ucraniano à residência e gabinete oficial do presidente norte-americano. "É uma honra estar ao seu lado na defesa unida contra o que é uma guerra brutal, brutal travada por Putin", disse Biden na Sala Oval. "Custa a acreditar, 300 dias a passar por isto. Putin empreendeu um ataque brutal ao direito à existência dos ucranianos como nação, e o ataque ao inocente povo ucraniano sem outra razão que não seja a de intimidar", referindo-se à escalada dos ataques russos às infraestruturas de energia e civis e no dia em que Kiev estimou que, no melhor dos cenários, a capital só terá 10 horas de eletricidade por dia.."Vamos continuar a reforçar a capacidade de defesa da Ucrânia, particularmente a defesa aérea", assegurou Biden a Zelensky. "Quero dizer que sinceramente não apenas nos inspiram, mas inspiram o mundo com a sua coragem e como escolheram a sua resiliência e determinação para o seu futuro", prosseguiu Biden..De seguida, e enquanto os repórteres de imagem ainda recolhiam material, o ucraniano entregou a Biden uma medalha que contou ter sido passado na véspera por um capitão, em Bakhmut, no Donbass. E agradeceu a Biden o "seu grande apoio e liderança em toda a Europa", bem como ao Congresso dos EUA e ao povo norte-americano. "Penso que é muito difícil compreender o que significa quando dizemos que agradecemos, mas temos realmente de o sentir", disse Zelensky em inglês..Segundo uma sondagem da Economist-YouGov, a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos (54%) têm opinião positiva de Zelensky, ao contrário de Vladimir Putin, que recebe 77% de opiniões desfavoráveis. Mas Zelensky tem em várias figuras republicanas na Câmara dos Representantes potenciais dores de cabeça. A começar pelo homem que deverá suceder a Nancy Pelosi, Kevin McCarthy. O republicano da Califórnia disse em outubro que não estava a ver o país entrar em recessão e continuarem a "passar um cheque em branco à Ucrânia"..Enquanto Zelensky viajava para os Estados Unidos, o ex-presidente russo Dmitri Medvedev deslocou-se a Pequim, onde se encontrou com o líder chinês. Xi Jinping disse a Medvedev esperar que "todas as partes" na guerra ucraniana mantivessem a contenção, procurassem o diálogo e encontrassem uma resolução política para a crise..Medvedev, que é vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, mas que se deslocou na qualidade de presidente do partido Rússia Unida, disse que ambos discutiram a cooperação entre o seu partido e o Partido Comunista Chinês "no âmbito da parceria estratégica, incluindo a economia e a produção industrial" e "também questões internacionais, incluindo, evidentemente, o conflito na Ucrânia". Medvedev tem usado com frequência as redes sociais para ameaçar o Ocidente, inclusive com o poderio nuclear russo..cesar.avo@dn.pt