Wim Mertens, na linha das fronteiras

Traz a Portugal novos discos e novas preocupações na bagagem para concertos em que volta a dividir-se entre piano e voz
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Já se sabe que os espetáculos de Wim Mertens para este regresso a Portugal vão incidir exclusivamente - ou quase - nos seus quatro álbuns mais próximos. Sobretudo em Cran aux Oeufs (editado já em 2017), mas com escalas significativas em Charaktersketch (2015), What Are We, Locks, To Do? e Dust of Truths (ambos de 2016). Discos que correspondem a uma fase, explicada pelo próprio compositor belga que, na próxima semana, completa 64 anos: "Venho de uma formação intelectual mas, em 1980, estabeleci como princípio metodológico esta definição simples: "O que vês é o que ouves." Por outras palavras, tudo o que queira dizer deve ser deduzido da música que apresento. Mesmo assim, chega um momento, por razões mais íntimas e inconfessáveis, ou por motivos que se prendem com a vida de todos, a comum, em que é preciso ir mais longe. Senti isso agora, perante as convulsões e as encruzilhadas da Europa, que chegou a um ponto óbvio, pelo menos para mim: ou muda, rapidamente e de forma segura, convicta, ou não continuará a funcionar como já aconteceu, entrará em colapso. A maior complexidade está no traçar deste novo perfil europeu, que precisa de ser legitimado passo a passo - estou convencido de que nada que não tenha a concordância do povo poderá sobreviver."

Estaremos, sem margem de erro, perante um novo ciclo de Mertens, ideologicamente - mais do que esteticamente - distante de Struggle for Pleasure e de Maximizing the Audience, duas das suas criações que mais contribuíram para a sua afirmação como autor, depois de ter sido trabalhado nos bastidores da TV, de ter produzido concertos (sem coincidências: algumas das passagens pela Bélgica de Philip Glass, Steve Reich, Terry Riley, Meredith Monk e os Urban Sax, entre outros), de ter realizado e apresentado um programa de rádio chamado Funky Town, antes de se ter lançado à aventura de escrever um livro, baseado numa tese de mestrado e intitulado American Minimal Music (lançado em 1983 e reeditado em 1998), com prefácio de Michael Nyman, em que abordava a escola, o estilo e os métodos dos seus heróis criadores: além dos já citados Glass, Reich e Riley, sublinha-se o destaque concedido a LaMonte Young.

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Quanto a discos em nome próprio, se o começo foi relativamente tardio, pode falar-se em desforra: desde 1980, Mertens assinou mais de seis dezenas de registos, incluindo álbuns ao vivo e bandas sonoras (com destaque para The Belly of an Architect, um dos filmes modelares de Peter Greenaway).

Segundo os estudiosos da sua obra, esta reparte-se em três grandes vetores: em primeiro lugar, as composições para ensemble (às vezes pequenos grupos de cordas e de vozes, a que junta o piano e as suas próprias vocalizações), tidas como as mais acessíveis ou "comerciais". Em segundo, as peças para piano solo e voz, aguda e quase sempre entregue a um idioma inventado pelo autor. Em terceiro, os momentos mais experimentais, muitas vezes entregues a um só instrumento ou a um naipe de dois. Em qualquer das três frentes, e apesar do reconhecimento público (foram vários os discos de Mertens que ultrapassaram largamente os "circuitos fechados" mais clássicos), o autor debate-se com um problema que ameaça tornar-se inultrapassável e que é bem resumido pelo jornalista e crítico Christophe Verbiest: "Passados mais de 35 anos de intensa atividade, tendo atingido aquilo a que convencionámos chamar fama, Wim Mertens continua a ser olhado por muitos como um alienígena - não é suficientemente erudito para o mundo dos eruditos e é erudito demais para os que se movem nos universos pop."

Por mais que esta "desarrumação" possa incomodá-lo, Mertens deixa passar a imagem de que, acima de tudo, lhe interessa a possibilidade de continuar a trabalhar. Num caminho que, se já foi aproximado dos de Philip Glass e Michael Nyman, tem muito de autónomo, até nos pequenos pormenores, que correspondem a grandes decisões: "Optei sempre por me afastar da música que possa implicar dimensões épicas [Mertens lançou, em 1994, o disco Epic That never Was, que, além do sublinhado do título, ganha outra memória especial: foi gravado ao vivo no Teatro São Luiz, Lisboa, em outubro de 1993], decidi nunca escrever uma sinfonia ou uma ópera, talvez porque me mantenha na busca do poder das composições mais pequenas. Além disso, preferi sempre trabalhar à margem das organizações e instituições existentes, também para poder assumir uma posição independente face à indústria musical existente. Hoje, este caminho é seguido por muitos e aceite por todos. Quando eu comecei, nos meus primeiros anos, a história era outra."

De volta a Portugal, l, com passagem pelo 52.ª Festival de Sintra, tem a novidade de uma abordagem política e social, Wim Mertens traz novas histórias, o que se louva - desde que o piano e a voz não tenham perdido força e emoção.

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