Enquanto serve mais um copo à longa fila que se vai formando diante da banca coberta com uma toalha azul sobre a qual se ergue uma fileira de garrafas, Tomer Goren vai explicando "estamos em 40 países neste momento e acho que Portugal é o próximo". O "nós" é a destilaria Milk & Honey, que acaba de vencer o prémio de melhor whisky single malt do mundo nos World Drinks Awards e o cenário é o Sud Lisboa, mesmo à beira do Tejo. O pretexto para a vinda a Portugal foi a celebração dos 75 anos de Israel - uma oportunidade para dar a conhecer aquela que foi a primeira destilaria do país e cujas instalações já tive oportunidade de visitar numa ida a Telavive há quase um ano - mas já lá iremos..A verdade é que a viagem para Lisboa do mestre destilador Goren e dos seus companheiros da Milk & Honey foi atribulada. O voo da TAP em que deviam viajar teve um problema e depois de muitas horas no aeroporto Ben-Gurion acabaram por voar a caminho de Lisboa num avião da El-Al, a companhia israelita. O atraso na equipa - mas não nas garrafas - fez de Yotam Kreiman, o vice-chefe de missão da embaixada de Israel em Portugal, o anfitrião improvisado de uma prova organizada na véspera das celebrações do Dia Nacional no NINHO, junto ao Campo Mártires da Pátria e com vista sobre Lisboa. E foi com gosto e vasto conhecimento que Kreiman falou sobre estes whiskys envelhecidos no clima mediterrânico de Israel, que lhes dá sabores únicos - com destaque não só para o M&H Sherry Cask, que venceu o prémio de melhor whisky single malt, como para o APEX Dead Sea, envelhecido junto ao Mar Morto, 420 metros abaixo do nível do mar e onde a temperatura pode subir até aos 50 graus. Um whisky "tão forte e intenso quanto as condições em que é envelhecido", como se lê no site da destilaria. E que já foi ele próprio distinguido no Frankfurt International Trophy e no San Francisco World Spirits Competition."Começámos em 2012, as primeiras garrafas são de 2014. E passados dez anos, ganhámos o prémio de melhor whisky single malt nos World Drinks Awards. Estamos muito felizes com isso", explica ao DN Tomer Goren, enquanto lamenta não falar português, apesar de o seu excelente espanhol trazido da Argentina. E de garantir que desde a vitória "sentimos um aumento na procura"..Situada bem no centro de Telavive, a M&H tira proveito dos "300 dias em média de sol por ano e do clima mediterrânico" da cidade, como explicam no site. Um clima quente que faz com os seus whiskys envelheçam "rapidamente mas de forma graciosa". Hoje, com dez anos de experiência, já tiveram tempo de aprimorar a sua técnica, mas no início contaram com o apoio e todo o conhecimento de Jim Swan, um dos maiores especialistas em whisky. Falecido em 2017, o escocês que era conhecido como o "Einstein do Whisky" foi contratado pela M&H como conselheiro, também por ser perito em envelhecimento em climas quentes..E foi num dia de calor que visitei a destilaria da M&H. O final da manhã ainda convidava mais a uma meia de leite, mas o grupo de jornalistas portugueses não conseguiu resistir ao gin que Yotam Baras nos propôs logo à chegada, sublinhando que esta também é uma bebida que produzem. Do bar para a zona da destilaria em si com os seus tubos, condensadores e alambiques, Yotam foi-nos explicando que os israelitas não têm tradição de beber whisky, e por isso neste momento exportam 90% da sua produção. O segredo do whisky M&H? A evaporação acelerada, sobretudo nos barris envelhecidos junto ao Mar Morto. "Um whisky que envelheceu ano e meio em Telavive, mais ano e meio no Mar Morto corresponde a um whisky escocês de 25 anos"..O objetivo agora é levar os whiskys da M&H a todo o mundo. De volta a Lisboa e à conversa com Tomer Goren, o mestre destilador conta como a internacionalização da empresa começou "na Holanda - foi o nosso primeiro mercado internacional. Agora estamos nos EUA, Alemanha, Austrália, França". E nesta vinda a Portugal? "Viemos para falar com algumas empresas que importam bebidas alcoólicas. Espero que possamos ser representados por alguma delas em breve. Gostamos muito do país, é maravilhoso. Podemos brindar a Portugal com um whisky israelita"..helena.r.tecedeiro@dn.pt