Voz e violão de Badi Assad na Culturgest

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Foi a sua mãe, "rainha de colocar apelido em todo o mundo", que, quando ela era ainda criança, começou a substituir o tradicional Mariângela pelo muito mais simples Badi. Ficou Badi Assad. E surpreendeu-se já crescida ao descobrir que aquele nome, mistura da linguagem de bebé e do apelido libanês do pai, significa Leão Milagroso em árabe. A brasileira de 40 anos conta esta história numa voz sumida, escondida por trás dos fartos caracóis negros, "de bruxa".

Badi Assad tem uma carreira longa mas só hoje chega a Portugal com um concerto em nome próprio: às 21.30, no Grande Auditório da Culturgest, em Lisboa. O atraso deve-se, em grande parte, ao facto de Badi, tal como os irmãos Sérgio e Odair, ter começado a carreira como instrumentista, primeiro ao piano e depois com a guitarra (violão). "No Brasil, no início dos anos 90, ninguém queria uma instrumentista. Não conseguia falar com nenhuma gravadora", recorda.

Em 1998, um problema na mão obrigou-a a ficar dois anos sem tocar. "Foi um choque. O que eu iria fazer? Foi nessa fase que o canto veio mais forte. Tive de descobrir outra forma de expressão porque o violão já não estava lá. Só que o canto acabou conquistando um espaço muito grande no meu coração. Já não me vejo fazendo só música instrumental."

A vida de Badi deu uma reviravolta. Acabado o relacionamento com o músico Jeff Young e sem qualquer contrato nos Estados Unidos, a brasileira regressou ao seu país, reorganizou-se e voltou ao trabalho. Verde e Wonderland, álbuns lançados em 2005 e 2006, representam a nova fase da sua carreira e servem também de base ao concerto desta noite.

"Todos os discos começam com uma lista enorme de músicas de que gosto, minhas ou não." Em Verde, por exemplo, cabem temas dos U2, Bjork ou Yann Tiersen, ao lado de Luis Gonzaga e Toquinho. Em Wonderland, Badi decidiu fazer uma viagem com Alice ao outro lado do espelho. "Só que Alice descobre que aquele universo, aparentemente lindo, não tem só pessoas bacanas. Num olhar profundo, são todos um bando de loucos", explica.

No disco, fala da violência doméstica, do alcoolismo, da prostituição, da violação. "A gente está crescendo tecnologicamente mas como ser humano está muito lá atrás", denuncia. Com o som do violão e a produção de Jacques Morenlenbaum, Badi Assad criou a sua própria "terra das maravilhas". E, para mostrar que nem tudo é mau no mundo, termina o álbum com Estrada do Sol (de Tom Jobim e Dolores Duran): só que a voz da esperança que pede "me dê a mão, vamos sair para ver sol" não é da Badi actual mas a de Badi quando tinha quatro anos. Desafinação geral captada pelo pai babado para provar que, afinal, a cantora esteve sempre lá.

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