Voltar a "ligar" o talento no SNS

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A saída de profissionais de Saúde é uma das principais ameaças que o SNS enfrenta. Em algumas especialidades existe já uma carência bem identificada, como na anestesiologia, o que provoca uma baixa rentabilidade generalizada dos blocos operatórios.

No balanço de entradas e saídas ainda se regista um saldo positivo, fruto da contratação, nos últimos anos, de mais médicos e enfermeiros para o SNS. Paradoxalmente, existem mais profissionais, mas menor acesso à prestação de cuidados de saúde e, sobretudo menos qualidade. O que está a correr mal? Porque existe uma deserção do talento, um desaproveitamento ou absentismo do talento, ou pior o "desligar" do "talento" no SNS?

Um estudo realizado há cerca de dois anos referia que "as configurações atuais de funcionamento do Serviço Nacional de Saúde não diminuem o interesse pelo exercício da medicina, mas sim motivam a procura de condições mais aliciantes e compensatórias no exercício da mesma." Ou seja, os profissionais de saúde não querem abandonar as suas profissões, mas sim os seus locais de trabalho no SNS. E referem-no abertamente, esclarecendo as causas para que isso aconteça. É, por isso, importante juntar a ciência sociológica aos factos e analisar a Pirâmide de Maslow, ou a Hierarquia das Necessidades de Maslow, que determina as condições necessárias para que cada ser humano atinja a sua satisfação pessoal e profissional.

A Pirâmide de Maslow é dividida em cinco níveis hierárquicos, cada um formado por um conjunto de necessidades. Na base da pirâmide estão os elementos primordiais para a sobrevivência de uma pessoa, as necessidades fisiológicas. Estas estão preenchidas nos profissionais de saúde, mas as restantes não estão.

As necessidades de segurança (2.º nível da hierarquia) não estão garantidas. Senão vejamos: a carreira médica não é revista há 13 anos, não existe justiça no pagamento de horas extraordinárias, os salários são baixos e precários, as condições materiais de exercício da profissão e as oportunidades de progressão não existem, a síndrome de burnout é elevadíssima (nomeadamente pelo excesso de trabalho e questões relacionadas com sofrimento ético), o que se refletiu em milhões de dias de faltas em 2022. Existe, portanto, um estímulo à saída ou à existência de pluriemprego.

As necessidades sociais (3.º nível da Pirâmide) também não estão satisfeitas. A opinião dos profissionais é de que há descanso não devidamente gozado, com riscos para os doentes e para os profissionais de saúde. Sentem também dificuldades em acompanhar a família ou amigos. Além disso, as exigências assistenciais esgotam quase completamente a carga horária dos médicos com um processo burocrático extenso e muitas vezes duplicado por ferramentas informáticas que não comunicam entre si. A produtividade mede-se pela mera contabilização dos atos realizados, esquecendo a sua qualidade. Finalmente, não existe tempo ou estímulo para realizar discussões clínicas interpares e interespecialidades, algo fundamental para o crescimento pessoal e das instituições. O modelo "hospitalocêntrico", uma baixa taxa de camas para doentes agudos, reduzido número de vagas necessárias para cuidados de reabilitação, cuidados continuados, paliativos ou na esfera da saúde mental, somados à baixa literacia, explicam, em grande parte, a sobrepopulação dos serviços de urgência e talvez explique grande parte da desorganização do SNS.

O 4.º nível das necessidades prevê o status ou estima. Neste ponto, a diminuição no investimento público, as barreiras no SNS para a inovação, assim como a falta de tempo ou disponibilidade para uma formação adequada contribuem para o desagrado substancial dos profissionais. Por outro lado, as avaliações são permanentemente adiadas ou feitas com base num processo burocrático e não no mérito efetivo do exercício de cada especialista na sua função. As carreiras profissionais foram completamente destruídas, não existindo meritocracia.

Chegámos ao nível mais elevado, as necessidades de autorrealização. Significa o auto controle individual, a independência, a capacidade de fazer aquilo de que se gosta e que se é apto a fazer, com satisfação. Estes são os profissionais de saúde mais valiosos. Porém, referem que o modelo de gestão não dá autonomia, é pouco flexível, não permite tomar decisões de contratação, de compras de equipamentos e outras decisões relevantes e que devem ser rápidas. As instituições não estimulam a possibilidade de integrar projetos de investigação ou de participar em ensaios clínicos internacionais, o que proporciona reconhecimento. Há falta de articulação ao nível do sistema como um todo e a frustração é um elemento comum neste segmento.

Em suma, os níveis de satisfação e as expectativas em relação ao futuro profissional são baixos. Por isso há mais "deserção" que "retenção", sendo que muitas vezes essa deserção acontece mesmo quando o profissional de saúde "continua a trabalhar".

Deveria ser este talento que o SNS deveria valorizar e reter através de um conjunto de práticas e políticas atrativas que motivem estes profissionais. O salário é fundamental, mas não é suficiente. Deve acima de tudo ser equitativo e baseado em objetivos SMART. A carreira e a sua progressão devem ser meritocráticas e totalmente objetivas. Deve existir uma interconetividade entre os sistemas informáticos do SNS, privado e social, de forma a não multiplicar tarefas e custos. Devem ser criados pacotes de benefícios, como um dia a ADSE fez, que respondam às expectativas. Tem de existir reconhecimento e recompensa, meritocracia e plano de carreira, assim como a criação de locais de trabalho saudáveis que respeitem o equilíbrio entre o exercício da profissão e a vida pessoal. Tem de existir tempo para reuniões multidisciplinares e formativas, a possibilidade de participação em estudos clínicos e papers internacionais. Em suma, organizar, gerir e acima de tudo liderar. Porque é possível, e urgente, voltar a "ligar" o talento no SNS.

Diretor-Geral da Jaba Recordati

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