"Sem otimismo não há futuro, sem imaginação não há otimismo." - Victor Ângelo.Cada texto que escrevo representa um esforço imenso. Aquilo que o leitor lê em cinco minutos pode ter demorado um dia a escrever. É preciso definir as mensagens que pretendo transmitir, ser original tanto quanto possível, encontrar as palavras, evitar as colisões de sons e a cacofonia, as repetições, mencionar os diferentes ângulos sem cair em incoerências, tudo isto dentro de um espaço com um número de caracteres limitado. Apesar de todo esse grau de exigência, a verdade é que estou a escrever sobre assuntos da atualidade, que estão a decorrer à frente dos nossos olhos. Mesmo procurando deixar campo de manobra para que o leitor possa fazer a sua interpretação do que fica escrito, e apesar da preocupação com o prognóstico, algo que considero fundamental que exista na maioria dos meus textos, todo este trabalho é bem mais acessível do que conjeturar o futuro..Ora, neste capítulo final parece-me importante compor umas linhas sobre o futuro. Fazer antevisão depois de três anos de acontecimentos excecionais, incluindo este que tem sido essencialmente marcado por um comportamento indiscutivelmente criminoso, perante a lei internacional, do dirigente supremo da Federação Russa, é um risco. Reconheço-o. Vivemos dias de grandes interrogações e imponderáveis, em que tudo pode acontecer, incluindo uma nova guerra de grandes proporções. Mas não se pode refletir sobre a dinâmica da política internacional sem acrescentar umas linhas de previsão sobre o futuro que estamos a construir, sem responder à questão "para onde vamos?". Em janeiro [do ano passado] o meu vaticínio fora que estávamos perante um ano de crescimento dos populismos, que 2022 seria um período propício para o avanço dos radicalismos políticos. Assim foi, mas não só. A surpresa determinante veio de Moscovo. E Moscovo irá continuar a marcar a evolução da cena internacional em 2023..Um líder político da colheita a que pertence Vladimir Putin só tem uma obstinação: manter-se no poder, com determinação, unhas e dentes, repressão, assassinatos e mísseis, até ao último momento. É isso que a história dos despotismos mais sombrios nos ensina. Deste modo, tudo o que possa vir a decidir nos próximos tempos, incluindo uma declaração de guerra contra algum dos países da Aliança Atlântica, poderá apenas obedecer àquela sua fixação. Por isso, é fundamental encontrar uma saída que o afaste rapidamente e de modo surpreendente, repentino, do poder. A solução mais expedita e com menores custos passaria por uma reviravolta palaciana intramuros no Kremlin. Essa seria a aposta que faria, se tivesse acesso aos meios operacionais secretos que estivessem em condições de promover uma alternativa democrática e pacífica no topo da pirâmide russa. A continuação de Vladimir Putin à frente da Federação Russa agrava os riscos de uma conflagração internacional. É, certamente, uma das grandes ameaças que a Europa democrática e as outras democracias têm pela frente. Putin pode facilmente chegar à conclusão que não tem outra saída que não um alargamento da guerra para aquém da Ucrânia..Paralelamente, considero um erro a hostilidade contra a China de Xi Jinping, por parte dos países ocidentais. E vice-versa. A China não tem a mesma ambição de esfrangalhar a Europa que existe no Kremlin. A China e o Ocidente precisam um do outro. São, no essencial, economias complementares. Os contactos diplomáticos devem, por isso, ir no sentido da cooperação e assentar essa cooperação nos interesses mercantilistas de ambas as partes. A estabilidade na ordem internacional e a paz são importantes para um e o outro lado, e dependem desse equilíbrio e do respeito mútuo pelas regras comerciais definidas entre as partes e pela Organização Mundial do Comércio. Esta maneira de ver não significa que se possa esquecer as violações dos direitos humanos na China, as repetidas ameaças contra Taiwan, a crescente imposição em países mais pobres, onde o dinheiro chinês tudo compra, desde a economia até aos líderes políticos, e as repetidas tentativas de espionagem promovidas pelas autoridades de Beijing contra os nossos interesses políticos e económicos. A essas práticas inaceitáveis responde-se com uma diplomacia forte. Isto significa uma política capaz não só de mostrar a Xi Jinping e aos seus que as anexações militares não podem ser hoje a continuação da diplomacia por outros meios, e que não serão toleradas, bem como passível de envergonhar a imagem do país e dos seus dirigentes perante a cena internacional. Responde-se, também, com a intensificação da solidariedade para com os cidadãos chineses que internamente lutam pela abertura do regime..A minha posição sobre o futuro da China fica clara nesta coletânea. É um facto que se trata de uma superpotência e de uma sociedade extremamente empreendedora. Essas são as dimensões positivas da equação. Todavia, o país tem duas imensas fragilidades: a dimensão da sua população, sobretudo da urbana, que mais tarde ou mais cedo ganhará consciência da força política explosiva que existe nas multidões que vivem nas cidades; e a ausência de um sistema político democrático, ao nível do topo, mas também em todos os outros escalões do controlo férreo da vida pública e da organização da sociedade. A impossibilidade de debater as opções de interesse público, sejam elas nacionais, regionais ou locais, acabará por acentuar decisões profundamente erradas, agravando assim as tensões sociais. A prazo, tudo isto poderá resultar no enfraquecimento da unidade nacional e prejudicar o papel positivo que poderia desempenhar na arena multilateral..As questões do clima, da Agenda 2030 do Desenvolvimento, dos conflitos regionais e do extremismo, das migrações e dos refugiados, do respeito pela dignidade humana e da igualdade entre os homens e as mulheres terão de voltar a ocupar a primazia que devem ter, quando se discute o futuro do nosso planeta. Esses são os grandes tópicos da comunidade das nações que queremos construir. E com a sua construção, deverá renascer a discussão da reforma do sistema político das Nações Unidas, ou seja, a necessidade imperiosa de reformar o Conselho de Segurança, a sua composição, autoridade e forma de funcionamento. Estes temas deveriam estar bem no centro da agenda internacional em 2023 e nos anos seguintes. Cabe aos líderes políticos trazê-los de volta e, simultaneamente, reorganizar uma nova agenda da paz e de solidariedade entre os povos..Finalmente, sobres as nossas preocupações específicas enquanto membros da União Europeia, vários textos repetem quão importante é consolidar a autonomia europeia em relação aos outros blocos, nomeadamente o norte-americano. A Europa nunca será inteiramente autónoma, por várias razões, incluindo por causa da nossa dependência em termos de matérias-primas e do modelo económico que está na base da prosperidade dos europeus, um modelo alicerçado no reforço do comércio e da cooperação internacionais. Mas mesmo assim, poderá criar um alto grau de independência, se diversificar as suas alianças, as suas fontes de abastecimento e se continuar a insistir no conhecimento científico e tecnológico. E se não se esquecer que a autonomia assenta igualmente na segurança de cada cidadão, no respeito pela sua dignidade e pelo bom funcionamento dos sistemas de justiça e de criação de oportunidades sociais.